Opinião
Uma personagem singular
JOSÉ MEDEIROS * Feliz o povo que, anualmente, tem figuras ilustres para reverenciar, sendo todas elas patrimônios culturais e intelectuais de inegável valor histórico. Vejamos, como referência: 2002 foi o ano de Graciliano Ramos; em 2003, festejou-se Arthur Ramos; em 2004, Jorge de Lima e, concluindo essa seqüência, em 2005, comemora-se o centenário de Nise da Silveira. Considerei prazerosa a oportunidade de apresentar o livro ?Nise, Abecedário de uma Libertadora?, de autoria do médico escritor Dídimo Otto Kümmer. Fiz isso em nome da comissão designada pelo presidente do Conselho Regional de Medicina, dr. Emanuel Fortes Cavalcante, para organizar as festividades do ?Centenário da dra. Nise da Silveira?. Dr. Dídimo já havia publicado outras obras literárias e biográficas: ?Arthur Ramos, significativas passagens? e ?Pequeno Dicionário Graciliânico?. Em todos esses trabalhos de pesquisa, a mesma linha: exposições abrangentes e minuciosas, abordando aspectos da vida e da obra desses escritores. Utiliza linguagem simples e acessível, tornando bem agradável a leitura de seus trabalhos literários. O autor registra acontecimentos, fixa datas, interpreta fatos e feitos dessas existências humanas extraordinárias. Até parece ter olhos de lince, visão penetrante de psicanalista na observação e colheita de dados e depoimentos. Autor da trilogia dicionarista que inclui Graciliano Ramos, Arthur Ramos e Nise da Silveira, Dídimo, em muito contribui para o estudo dessas personagens. Nise tem uma história singular. Aos 16 anos (isto, em 1921), já cursava o 1º ano de Medicina. Ao apresentar o livro do dr. Dídimo, lembrei uma historieta inserida em sua obra que procuro resumir. O mestre de Parasitologia da Faculdade de Medicina da Bahia iniciou sua aula inaugural, dizendo: é tempo de criarmos um serpentário na escola... Vamos criar cobras para pesquisar como será possível neutralizar o veneno. Em seguida, veio o funcionário da faculdade trazendo uma cobra viva, presa num vidro. O professor tirou a serpente do recipiente e, de repente, estendeu-a à caloura Nise da Silveira, que olhou o animal com preocupação e repulsa. Estava toda arrepiada. ? Senhorita, pode segurar? Nise sabia que era um teste, uma tentativa de desmoralizá-la, pois, àquela época, mulher que estudava medicina ficava sujeita a muitas discriminações. Não vacilou. Segurou a cobra durante um minuto. Então, virou-se para o colega ao lado, que ria dela, e controlando a voz, disse. ? Tome, é a sua vez! O aluno ?amarelou?. Quanto mais leio os livros ou o que se escreve sobre essa psiquiatra, mais admiro sua coragem, rebeldia, tenacidade e sua contribuição à prática de inovações nos serviços de saúde mental do país. No museu Pierre Chalita, custou-me conter a emoção diante da exposição de pinturas e trabalhos de artes plásticas, criadas pelos doentes do Hospital Portugal Ramalho. A terapia ocupacional foi uma das linhas de trabalho da Dra. Nise. Nise da Silveira foi a primeira alagoana a formar-se em medicina. (*) É MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE SAÚDE E DE EDUCAÇÃO