Opinião
Um santo ingl�s
DOM EDVALDO G. AMARAL * A Inglaterra não é só aquele trio: um indeciso Charles, uma bela Diane e uma feia Camilla Bowles, a preferida do príncipe herdeiro. Tem também seus heróis, seus santos, seus mártires da fé cristã e da fidelidade à Igreja de Jesus. Hoje, queremos ver algo sobre um pouco conhecido, que foi canonizado pelo Papa Paulo VI em 25 de outubro de 1970: Edmond Campion, o jesuíta mártir, verdadeiro campeão da fé, que viveu de 1540 a 1581. Filho de pais católicos que, com o advento ao trono de Isabel I, fizeram-se anglicanos, Edmond viveu em sua adolescência o clima incerto da passagem pelo trono inglês de soberanos de várias confissões religiosas: Henrique VIII, que de ?Defensor da Fé? tornou-se inimigo do Papa, Eduardo VI, filocalvinista, Maria, a Católica... ?Onde está a verdade?? Se perguntava o jovem Edmond, muito aplicado aos estudos. Com 13 anos, fez belíssimo discurso de saudação à rainha Maria em sua escola, o que lhe valeu um lugar no Colégio de Oxford. Angustiado em sua fé, em 1564 é obrigado a fazer o juramento anticatólico, reconhecendo na rainha Isabel I a ?supremacia? da Igreja Anglicana. Com o estudo dos Santos Padres, S. Inácio de Antioquia, S. Ambrósio, S. Agostinho, é levado a reconhecer no Bispo de Roma o primado de jurisdição sobre toda a Igreja. O bispo de Gloucester, que passara ao anglicanismo, o quer como sucessor e o ordena diácono, insinuando-lhe que pode professar a fé católica em seu íntimo, bastando que seja considerado por todos anglicano no exterior. Edmond é uma alma pura. Não aceita esta duplicidade, abandona os estudos e os cargos que tinha em Oxford e foge para Dublin, para viver ostensivamente como católico. A Rainha Isabel, que o conhecera em Oxford em 1564, quando também foi saudada por ele em nome dos ?fellows? de Oxford, começa a persegui-lo por ter ele o ?delito de ser papista?. Campion foge para a França e lá, feita a abjuração do cisma, volta à fé católica. Em Roma, em 1573, é recebido na Companhia de Jesus e, ordenado sacerdote em 1578, tem a felicidade de celebrar o Sacrifício Eucarístico, aquela Missa que Isabel da Inglaterra considerava um crime a ser punido com a morte. Em 1580, realizando seu grande sonho, é enviado pela Companhia de Jesus à missão na Inglaterra. O Papa Gregório XIII o abençoa e encoraja. Durante a longa viagem, é informado de que já sabem de sua chegada. Travestido de joalheiro, refugia-se em Londres na casa de amigos fiéis. A 29 de junho daquele ano, festa de S. Pedro, faz um discurso público sobre as palavras de Jesus: ?Tu és Pedro? (Mt l6,l8). A rainha é informada do fato e decreta sua prisão. Padre Campion deixa a capital e inicia uma viagem pastoral por inúmeros condados. Antes de fugir, deixa declaração escrita, na qual se confessa sacerdote católico e jesuíta, e solicita três debates públicos: diante dos Lordes, dos doutores da Universidade e dos especialistas em direito civil e canônico. E conclui: ?Nós, jesuítas, levaremos a Cruz e não desesperaremos nunca de vossa conversão. Haverá sempre um de nós para experimentar a alegria do vosso patíbulo, já que assim foi plantada a fé em nossa Ilha e assim ela será restabelecida?. Na peregrinação pelo território de sua pátria, confirma os católicos perseguidos, chama à verdade os indecisos, celebra clandestinamente a Santa Missa e encontra a fortaleza de que necessita de Jesus imolado por nós e recebido na santa comunhão, do rosário de Maria e da prece aos grandes missionários que levaram a fé cristã à Inglaterra. Em toda parte, suscita fervor e entusiasmo por Jesus eucarístico e pelo Papa. Na festa de São Pedro de 1581, coloca nos bancos da Igreja de Santa Maria de Oxford 400 cópias de um opúsculo, que conseguira imprimir clandestinamente, explicando como, antes da Escritura, há a Tradição viva da Igreja, a qual possui os sacramentos, primeiro de todos, a Eucaristia, presença real e sacrifício de Cristo. Confutando outros erros e sofismas, faz veemente apelo à própria Rainha: ?Majestade, vós estais no erro, retornai imediatamente à verdade da Igreja, se quereis salvar vossa alma!? Enquanto celebrava para um grupo de sessenta católicos, na casa da Senhora Yate, é preso e conduzido à Torre de Londres, levando ao pescoço um cartaz: ?Jesuíta Traidor?. Diante da própria Rainha, defende de fronte erguida sua missão. Isabel lhe promete cargos e benesses se ele apostatar de sua fé. A 16 de novembro, diante de uma grande multidão, vinda de toda Londres e de fora, padre Edmond responde a todas as interrogações que lhe são feitas, despertando o entusiasmo dos próprios anglicanos presentes. Assim mesmo, é condenado e executado em 1º de dezembro, dizendo aos seus algozes: ?Deus vos abençoe e vos faça bons católicos!? Santo Edmond, mártir da Verdade, abençoe e proteja sua Ilha, no tempo de hoje. (*) É ARCEBISPO EMÉRITO DE MACEIÓ