Opinião
A Bienal e a civilização .
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Naquela época não tinha muito o que se fazer nas horas vagas: era comer, beber e fazer sexo, para quem podia. Os livros eram manuscritos, poucos, caros e de acesso restrito. Restava beber mais, brigar mais e para alguns, uma alternativa frequente era – e ainda é – a violência; fazer guerras e matar gente. Foi quando, entre 1450 e 1455, Gutenberg produziu uma Bíblia com 42 linhas por página - o primeiro livro impresso com tipos - e a levou para a Feira Comercial de Frankfurt. Por um extraordinário golpe de sorte, um certo Ênea Piccolomini ficou encantado com ela e levou essa informação ao cardeal de Carvajal, que logo buscou Gutenberg e adquiriu um exemplar.
Os efeitos da invenção de Gutenberg, o primeiro livro impresso, foram instantâneos e de alcance extraordinário, pois quase imediatamente muitos leitores perceberam suas grandes vantagens: rapidez, uniformidade de textos e preço relativamente barato. De repente, pela primeira vez, desde a invenção da escrita, era possível produzir material de leitura rapidamente e em grandes quantidades. Poucos anos depois da impressão da primeira Bíblia, máquinas impressoras estavam instaladas em toda a Europa: em 1465, na Itália, 1470, na França, 1472, na Espanha, 1475, na Holanda, e na Inglaterra, em 1489. A imprensa só chegou ao Novo Mundo em 1533, com seus primeiros prelos à cidade do México e, em 1638, a Cambridge, Massachusetts.
Evidentemente, como toda nova invenção, alardeou-se “o fim do mundo”, que seria o fim do escrito a mão, mas isso não ocorreu, pois com o acesso mais fácil aos livros mais gente aprendia a ler e a escrever. E no século XVI, explodiram as escolas de caligrafia. É interessante observar a frequência com que um avanço tecnológico - como o de Gutenberg - antes promove do que elimina aquilo que supostamente deve substituir, levando-nos a perceber virtudes fora de moda que de outra forma não teríamos notado ou que consideraríamos sem importância. Isso ocorreu quando a televisão surgiu e se dizia que o rádio desapareceria. Assim, acredito que o kindle, o livro eletrônico, chegou para somar.
Transcorre a Bienal do Livro de Alagoas promovida pela UFAL, com apoio do governo do Estado e com uma presença de público de algo como 300 mil pessoas. Editoras expõem seus livros; palestras, shows e mesas-redondas são realizadas. Autores alagoanos são debatidos por literatos nacionais e locais com profundidade e autores locais atuais têm seus espaços.
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Como disse Marco Lucchesi, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras e atual presidente da Biblioteca Nacional e um dos convidados da Bienal: “Seria impensável em pleno século XXI precisar defender os Livros, a Cultura e a Civilização. Aqui chegamos...”. O livro, símbolo fundamental da civilização, enfrenta um inédito desafio com tantas formas de prender a atenção, como a televisão e internet, principalmente, mas ele continuará sendo uma fonte de informação, de conhecimentos e de lazer, fundamentais. E para nossa maior emoção, minha neta Júlia, a Juju, conjuntamente com um grupo de crianças menores de 10 anos, estará lançando um livro original neste sábado, na Bienal, chamado “Misturolândia”. O livro é um componente essencial do conhecimento e da civilização. Quem o lê sempre poderá mudar para melhor.