loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quarta-feira, 05/08/2026 | Ano | Nº 6282
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

Tempo sagrado

Ouvir
Compartilhar

DOM FERNANDO IÓRIO * Fora de dúvida, guarda, sempre, o tempo um misterioso sagrado. Ainda limitado, guarda o tempo aquele sinal do ilimite com que sonhamos. Estamos vivendo o tempo sagrado da Quaresma, reservado ao perdão, à misericórdia, à reconciliação. Nesse tempo de prepotência, do direito da força, somos convidados a refletir sobre o perdão, quase banido do vocabulário dos poderosos. No declinar do século XX e início do novo milênio não tem deixado João Paulo II de pedir perdão ao mundo pelas prováveis culpas que haja, porventura, a Igreja cometido contra os direitos humanos, através dos séculos. Esses pedidos de perdão envolvendo o chefe da Igreja Católica vão para além de simples desculpa, não sendo, apenas, gestos, politicamente, corretos. São, pelo contrário, gestos sofridos que demonstram o intenso desejo de querer o papa semear, nos primeiros anos do milênio, a consciência de se encontrar em paz com todos os povos. Oxalá, possam todos entender esse espírito aberto ao perdão, seguir esse exemplo, e, num grande amplexo universal de mútuo perdão, entre igrejas e povos, construir o desejado mundo de fraternidade e paz. Estou em que, nesses pedidos de perdão, haja necessidade de conhecer, profundamente, a própria história, de avaliar, com prudência, as eventuais acusações, não aceitando, ingenuamente, a propaganda que culpa a Igreja de todo o mal acontecido nos últimos séculos. Quanto aos historiadores, urge o dever de uma honesta, desinteressada e corajosa pesquisa no sentido de esclarecer a realidade dos acontecimentos e a responsabilidade dos verdadeiros autores dos supostos crimes ocorridos na história. Será que podemos falar de verdadeira culpa da Igreja, ante os fatos, gestos, acontecimentos que, hoje, são condenados, mas que não pareciam na época em que foram praticados? Por que tantas acusações somente contra a Igreja Católica? Sendo assim, quem vai pedir perdão pelos massacres cometidos por colonizadores não-católicos na América do Norte, na África do Sul e na Oceania? Quem vai pedir perdão pelo genocídio dos católicos da Vandéia, durante a Revolução Francesa, crimes que, até nas comemorações de seu bicentenário, quiseram esconder? Quem vai pedir perdão pelo fuzilamento de Inácio de Azevedo e dos 40 jesuítas, crime praticado pelos Calvinistas, por ódio à Igreja? Quem vai pedir perdão pela crucifixão de São Paulo Miki e seus 25 companheiros, em ódio à Igreja? Na sociedade pré-moderna, Igreja e Estado se identificavam e influenciavam no modo de vida e de pensamento que era único naquele tempo. Não se pode, por conseguinte, julgar o que aconteceu no passado com categorias mentais de hoje. Isso não significa querer justificar algo condenável que, hoje, não podemos aprovar, mas que bem analisado, nem teria necessidade de perdão. Com efeito, a essa altura, necessitamos de nova luz, de novo sol, de uma nova crítica em favor de uma revisão mais justa da história, fato que poderia ser o início de novo relacionamento da Igreja com o mundo. Quaresma é tempo favorável ao perdão. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS

Relacionadas