Opinião
Antecipa��o do futuro
JOSÉ MEDEIROS * Por ter nascido numa fazenda às margens do Rio São Francisco, minhas lembranças voltam-se sempre para um trecho dessa caudal de águas verdes claras, que se espraiavam até onde a vista podia alcançar. Da varanda da fazenda, situada num altiplano, divisava, num contorno do rio, uma fileira de casas coloniais e a bonita igreja de Nossa Senhora do Ó, padroeira da cidade de Traipu. Ali, vivi uma infância alegre e feliz. No início de cada ano, embarcava no navio ?Comendador Peixoto? com destino a Penedo, onde estudava o curso ginasial. Quando conversei sobre esse assunto, a pessoa com quem falava perguntou de imediato: E em navio? Como um rio estreito como está agora, assoreado, cheio de ilhas e bancos de areia, poderia possibilitar a navegação? Respondo que estou descrevendo uma cena do início da década de 50. Até essa época, o Baixo São Francisco possuía embarcações de médio porte, como os vapores ?Penedinho? e ?Comendador Penedo?, que faziam a interligação entre as cidades ribeirinhas de Penedo a Piranhas. E, se voltarmos um pouco mais no tempo, saberemos que através da foz do São Francisco, em Piaçabuçu, navios de companhias marítimas subiam o rio até Neópolis (antiga Vila Nova) e Penedo, trazendo mercadorias, e, de lá, voltavam com produtos das fábricas têxteis dessas cidades, destinadas ao sul do País. Depois das hidrelétricas de Sobradinho e Xingó, o rio diminuiu em largura e em profundidade. Há trechos rasos em que só canoas e lanchas podem transitar. Em 1986, eu era deputado estadual e fiz um minucioso estudo da Região do Baixo São Francisco, analisando seus problemas econômicos e sociais. Era mais que um projeto, era uma exposição contendo sugestões de medidas consideradas indispensáveis à ?revitalização? da região. À época, pouco se falava em transposição. Após discussão na Assembléia Legislativa, o projeto foi encaminhado aos Ministérios e órgãos de governo. Como resposta, só breves ofícios protocolares. Passaram-se os anos. Procurei esse estudo sobre a vida ribeirinha do Rio São Francisco e não mais o encontrei. Meu arquivo não é dos melhores. Julguei-o perdido. Felizmente, há pessoas que mantêm ?arquivos implacáveis?, colecionam documentos. O veterano e experiente jornalista Valmir Calheiros é um desses abnegados. Conhece muito da vida política alagoana. Encontrou o ?Projeto Velho Chico?, que eu já não possuía. O documento foi concebido como uma busca de alternativas e soluções para os graves problemas da região sanfranciscana, tão cheia de potencialidades. Abordava temáticas ligadas ao turismo, transporte, economia, comunicação, produção, emprego e renda. Analisava estatísticas. Preconizava incentivos ao crescimento do setor agrário e investimentos na área social. Quase vinte anos depois desses estudos, os definhamentos da economia da região continuam, deixando como saldo um contingente populacional que sofre de crescente grau de pauperização. As águas desse rio são amores do meu humano-consciente e sonhos habituais que afloram de processos psíquicos guardados na inconsciência. (*) É MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO E DE SAÚDE