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Opinião

José Paulo Paes: o crítico e as Alagoas .

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Mimo: alegria de menino impossível. Chega-me, coisa de semana atrás, via postal, o quê? Ora, logo dois volumes! »Crítica reunida sobre literatura brasileira & inéditos em livros« (selo conjunto da Cepe e do Ateliê) acaba de se lançar, sob os desvelos do professor Fernando Paixão e desta minha querida amiga Ieda Lebensztayn (uma, sem hesitar, apaixonada da áurea atmosfera cultural alagoana dos anos trinta. »Merminho igual« a mim). E é ela quem, com acurácia criadora de expressão, resume o conteúdo da iniciativa: »historiografia hermenêutica«.

Tomemos os exemplares. Pronto: já dos sumários deduzimos tratar-se de interpretação literária concebida pacientemente (e desapegada de teorias estéticas) ao longo de quatro decênios. Nos textos de José Paulo Paes (1926-98) ? singular ensaísta e incansável intelectual brasileiro à maneira quase extinta de sê-lo (ademais: poeta, tradutor, artista infantojuvenil) ?, notamos de sorte alguma estar a intuição sujeita ao mero impressionismo perturbador do elegante equilíbrio entre erudição e sobriedade, agudeza e gosto.

De São Anchieta (1534-97) a Gregório de Matos (1636-96); de Luís Gama (1830-82) a Castro Alves (1847-71); de Machado (1839-1908) a Augusto dos Anjos (1884-1914); de Lobato (1882-1948) a Bandeira (1886-1968); de Mário de Andrade (1893-1945) a Drummond (1902-87); de Murilo Mendes (1901-75) a Erico Verissimo (1905-75); de Lúcio Cardoso (1912-68) a Jorge Amado (1912-2001); de Lygia Fagundes Telles (1918-2022) a Moacyr Scliar (1937-2011); de Dalton Trevisan (1925-) a Chico Buarque (1944-); de Wilson Martins (1921-2010) a Massaud Moisés (1928-2018), tece-se verdadeiro panorama do meio milênio das letras nossas, cujo autor parece até havê-lo planejado.

Mas agora, leitor, confesso-lhe: desisto de resistir a tentação tão boa. Porque, nos ensaios paesianos, figura, dentre mais duma centena deles, a precisa dezena de estudos em volta de gente das Alagoas. Sim, a começar do Marechal de Ferro (1839-95), onde se cotejam folhetos ao derredor da »alma oblíqua« de esfinge indecifrada, visto provocar em nós, inclusive hoje, recusa, idolatria ou abstenção.

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Jorge de Lima (1893-1953) em três momentos é alvo de apreciação perto de herege: à contramão da maioria dos seus estudiosos, o crítico paulista discorda encontrar-se no surrealismo ? mesmo nos romances »O anjo« (1934) ou »Guerra dentro do beco« (1950) ? o movimento a sulcar-lhes os enredos. Ao revés de outros autores (a exemplo do seu irmão de armas cristãs, Murilo), guiados pela intencionalidade espontânea e catártica de fusão do sonho ao verossímil, exercera a vanguarda influxo ocasional. Porém, discrepo da hipótese, unilateral e, também, um tico forçada, de se restringir a poética limiana à substância religiosa. Persiste, nas composições regionais e sociais, a mimese matreira, de valor etno-histórico.

Alcançamos os pontos de truz do temário aqui recortado: as sugestões em torno do insólito (e solitário) Jorge Cooper (1911-91) (aliás, cuja obra lhe fora apresentada pelo meu estimado amigo e xará Marcos de Farias Costa) ?, bem assim de Graciliano (1892-1953) e Ricardo Ramos (1929-92).

Da lírica coorperiana ? e por um triz não me escapa: »copernicana«, porquanto poesia graciliânica de rara coerência dialética, constrita em gordura estilística e exuberante no sutil vigor da dicção (dês cética a irônica, acompanhada de travessões e parêntesis apenas) ?, propôs ser congenial, numa tradição a remontar ao próprio Camões (1524-80), do Pessoa (1888-1935) de »Chuva oblíqua« (1915) e do Drummond de »A máquina do mundo« (1949), dadas a finura filosófica e a concisão desconfiada dos versos.

Ao derradeiro, justo através de Paes somos levados a imaginar a tese: tanto Graça quanto o filho trabalharam (cada qual ao seu modo) a concretude narrativa do torpor e do vazio. Naquele, aos personagens neorrealistas roídos pelas consciências, reféns menos da mente que do existencial, sobra ainda uma fresta (frustra, embora) de emancipação; contudo, na contística ricardiana (triste dizê-lo), a alienação apodera-se do quotidiano, os verbos anestesiam as ações, a rotinização vence a esperança, o orvalho da vida seca-se feito roteiro de publicidade.

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