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As cidades

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EDUARDO BOMFIM * O sujeito pode ter o privilégio na vida de conhecer cidades exóticas, monumentais, e catedrais magníficas. Ver as sete maravilhas do mundo e paisagens naturais em cartazes afixados nas melhores agências de viagens do País, quase sempre deslumbrantes. Vejam, por exemplo, Brasília. Todos os dias, dezenas de turistas de inúmeros países percorrem os seus pontos principais, maravilhados, boquiabertos com o seu traço futurista, a ousadia genial da arquitetura do seu criador, Oscar Niemeyer; o paisagismo de Burle Marx espalhado em imensos espaços floridos sobre um verde dominante, contrastando, assim como uma redoma cobrindo a cidade, com um céu nítido e azul de doer os olhos. Pode-se falar da Acrópole em Atenas, onde contemplamos, incrédulos, dezenas de séculos. Ou ela nos contempla, enfastiada de uma milenar peregrinação de milhões de mortais. Paris a Cidade Luz, ou mesmo Roma, ?a eterna?, com seu majestoso Coliseu. Sevilha, a moura cidade de Espanha que encantou o poeta João Cabral de Mello Neto. E por aí vai. Em um mundo perplexo e apavorado em meio a tanta violência e injustiças sociais, democracias instauradas por meio de bombardeios maciços, pelos que se dizem eleitos por Ele, a empunhar o porrete contra nações e povos, sem a prévia consulta ao Supremo para a delegação de brutal autoridade ? a qual, evidentemente, jamais seria concedida ?, sobrevivem os Da Vinci, além de toda a beleza material e imaterial construída pela humanidade. Mas observem o seguinte: o cidadão ou cidadã contempla as pirâmides do Egito, ou passeia pela velha Lisboa dos nossos colonizadores, que por aqui se diluíram em outra civilização mais complexa e avançada antropologicamente. Dali percorre os caminhos para Santiago de Compostela. Mergulha nos quadros do Louvre, caminha pelas muralhas da China, observa a Cidade Proibida, perambula pelas ruas de Luanda ou Maputo, em busca dos nossos ancestrais da África. Tudo isso com um objetivo íntimo, das profundezas de sua alma: a busca das suas origens, para assim melhor compreender sua terra e cultura. Nelson Rodrigues afirmava que o brasileiro, no caso o carioca, depois de Bonsucesso, é tomado por uma profunda melancolia e saudade típicas dos exilados. Eis a questão. Nós viajamos para voltarmos ávidos, sedentos de cordialidade, da nossa sonoridade lingüística e musical. Angustiados pela ausência da comunicação e pela solidão dos homens em Londres, tão refinados, tão educados, com suas ruas limpas e sua organização social impecável. Nessas terras, o frio que sentimos é bem mais que físico. Trata-se de uma aguda somatização sociológica. É a ausência lancinante do calor humano, do palavrão, do bate-boca, da feijoada de raças e da própria feijoada mesmo, tanto faz se com feijão preto ou do outro. Viajamos para sentirmos falta da Chapada Diamantina, de Salvador, da Casa Forte, do Recife velho ou do novo. Do Rio de Janeiro, com a guerra do tráfico e tudo mais. De Minas Gerais e suas cidades barrocas, de Paraty, de Brasília que a tantos orgulha e estupidamente a alguns causa repulsa. Digo mais, muitos deixam o Brasil para se apaixonar por Brasília. Retornam amantíssimos e deslumbrados com a capital federal. Enfim, viajamos para mergulhar, ao retorno, nas águas mornas de Maceió, da Barra de São Miguel, de Guaxuma, Ipioca, Maragogi. Simplesmente para nos lambuzar com a carapeba e o sururu de capote. Empanturrados de civilização. (*) É SECRETÁRIO-ADJUNTO DO MINISTÉRIO DA COORDENAÇÃO POLÍTICA

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