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Opinião

A Maestrina .

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Para manter cânticos com a predominância da voz feminina, castrar meninos antes da puberdade para manter-lhes a extensão vocal das vozes femininas –os chamados castrati (plural de castrato em italiano) - em todas as suas tessituras (soprano, mesosoprano e contralto) foi um costume na Idade Média consubstanciado pela Igreja e que perdurou até o fim do século XIX. Ainda existe no Google a gravação da Ave-Maria de Gounod pelo último castrati famoso, Alessandro Moreschi.

Dizem que os anjos não têm sexo, mas há de se imaginar que um coral de anjos se pareça com algo como o Quarteto Em Cy, cantado “Tarde em Itapoã”, Elis Regina cantando “Fascinação” ou Ella Fitzgerald cantando “Autum Leaves”. Dizem que Bach em suas polifonias buscava algo como o canto dos anjos, que não poderia ser diferente de um coral feminino bem afinado. Mesmo em poderosas orquestras sinfônicas, uma única laringe feminina pode ser seu maior, mais belo e mais importante destaque, superando todos os instrumentos juntos.

A Maestrina (com M maiúsculo, segundo o Ênio Lins) Fátima Menezes, que nos deixou precocemente, foi a grande incentivadora dos corais, especialmente o CORETFAL, que se apresentava aqui, no Brasil e no exterior, cantando música popular brasileira, música erudita e música carnavalesca, quando então ultrapassou os umbrais dos teatros e foi de encontro às multidões na orla de Maceió. No primeiro desfile do bloco Pinto da Madrugada, em cima de um trio elétrico improvisado, com Anilda Leão, já setentona, deslumbrou os foliões e desde então, o coral da Pintoca passou a ser a maior atração musical das prévias carnavalescas de Maceió.

Em seu velório, preenchido por música ao vivo e cantos coloquiais, os depoimentos comoventes de colegas de ofício e de jornadas, como o cantor Netto, do folião Braga Lyra, que entre lágrimas afirmou estar ela já em reunião no céu com Marcial e Edécio Lopes, e do Teotônio Vilella Filho, que lembrou quando a Fátima o auxiliou em seu maior desejo, que era poder cantar uma canção natalina para a sua família e ela, em uma véspera de Natal, deixou todos os seus compromissos para ensinar-lhe e a filha como cantar o “Noite Feliz”.

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Em sua trajetória final da capela 7 para o túmulo, ao anoitecer de um dia nublado, o maestro Almir Medeiros e banda acompanharam o féretro com músicas suaves, enquanto um bando de quero-queros voava e pousava, sempre à frente do cortejo, como as plumas ao vento da ópera “La Traviata”. Churchill ao se referir à RAF na Segunda Guerra afirmou que “Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”. Nas Alagoas, podemos afirmar que nunca tantos foliões cantaram tanto e ficaram tão felizes quanto acompanharam a Maestrina pela orla da Pajuçara. Ela estará presente no próximo desfile.

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