Opinião
Conquista hist�rica
MARCOS DAVI MELO * A vitória ampla e irrefutável do Projeto de Biossegurança na Câmara Federal é um fato notável que não pode deixar de ser louvado por todos aqueles que, apesar de tudo, torcem para que as coisas avancem em nosso País. Por mais meritórios e incontestáveis que fossem os argumentos em favor do projeto, foi necessária uma grande mobilização da comunidade científica nos dias que antecederam a votação e no próprio dia, para que ao final o resultado fosse o melhor para a sociedade brasileira. Historicamente, não foi este o primeiro embate entre o avanço da ciência e as restrições do obscurantismo travestido de dogmas religiosos ou morais. Fazem parte do acervo da cultura popular casos como o de Galileu Galilei ( epuor se muove... ) e a Santa Inquisição, que queria porque queria evitar que o planeta Terra fizesse o seu movimento natural de rotação e translação. A latere e, de quebra, o governo e a facção lúcida do Congresso ainda marcaram um gol de placa ao aprovar o uso da transgenia no processo produtivo nacional, o que não era sem tempo. Estávamos também neste campo perdendo um tempo precioso para os concorrentes internacionais. Este momento não deixa de ser de regozijo, pois demonstra que quando situação e oposição querem atuar conjuntamente em favor de uma proposta séria, o País momentaneamente se viabiliza. Mas, as necessidades de avanço científico e social nacionais não se encerram com a vitória deste projeto. Existem muitas outras questões tão cruciais para a sociedade quanto esta, provavelmente mais polêmicas e que já estão mais que maduras para virarem motivo de debate nacional amplo e irrestrito. Cito aqui apenas duas delas, as quais pela minha vivência profissional muito me fizeram e fazem refletir, o aborto e a eutanásia. Em relação à gravidade do abortamento, isto pode ser refletido no Sistema Único de Saúde. Em 2003, 236.365 mulheres foram internadas para fazer curetagem pós-aborto. Estes procedimentos custaram R$ 28,9 bilhões aos cofres públicos e são o segundo procedimento obstétrico mais praticado nas unidades de internação. O abortamento é proibido por lei, mas praticado a larga clandestinamente, com um número grande de complicações que são atendidas pelo SUS, número elevado de mortes maternas em mulheres jovens e custos imensos para os cofres públicos. Desprezar esta realidade é a mesma coisa de dizer que a terra não se move. (*) É MÉDICO