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Opinião

Cora��o duro

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RONALD MENDONÇA * No início do ano fizemos uma cirurgia na coluna vertebral de um turista paulista de origem nipônica, que se machucara nas galés de Maragogi. Esse tipo de acidente, conhecido como ?mergulho em águas rasas?, infelizmente é muito comum e com freqüência provoca o que o leigo chama de ?quebra do pescoço?. A despeito da gravidade da lesão, o doente logo começou a melhorar. Foi aí que descobrimos que tínhamos operado um tipo bem humorado, um tremendo gozador. Às vésperas do seu retorno para São Paulo, o simpático descendente oriental perguntou-me se eu não tinha receio de que ele não me pagasse, uma vez que, não sendo daqui, o seu caráter era uma incógnita. Fui sincero e respondi-lhe afirmativamente, fazendo, contudo, duas ressalvas. A primeira ? um tanto farisaica, talvez ?, era de que já me sentia parcialmente recompensado pela evolução favorável do caso; a segunda ressalva era que os poucos ?beiços? que eu havia recebido tinham sido de pessoas conhecidas, daqui mesmo, tidas até então como ?de bem?. De quebra, acrescentei uma terceira: nunca tinha encontrado um caloteiro entre os súditos de Hiroíto. O cliente deu uma risadinha contida e arrematou com a seguinte história: ?Um japonês muito rico chegou ao Brasil e conheceu uma mulher, que o levou a passear pelas ruas de São Paulo. Passando por uma agência de automóveis importados, o imigrante pediu à moça que escolhesse o melhor automóvel ?que japonês paga?. Depois, olhando as vitrines de uma joalheria, o conquistador ofereceu a jóia mais cara ?que japonês paga?. A jovem recusou os 2 presentes. Foram então para um luxuoso hotel. Após os aconchegos, a moça teve sede e perguntou se poderia pegar uma água. ?Nem pensar! Água, aqui, só da torneira?, disparou o japonês, curto e grosso. Foi aí que veio o desabafo revoltado: ?Eu não acredito no que estou ouvindo, japa sacana: antes dos agrados você era o cara mais gentil e sensível que tinha convivido; parecia todo derretido, me prometendo mundos e fundos. Agora, faz docinho até por um copo d?água?. Impassível, o oriental retrucou: ?Antes, japonês pinto duro, ?coraçon? mole; agora, japonês pinto mole, ?coraçon? muito duuuro, non?? Nos últimos dias lembrei da velha piada do japonês depois de divulgado o percentual de 0,1 % de aumento que o presidente Lula quer conceder ao funcionalismo. Como a mulher de programa, ninguém consegue entender como um sujeito pode mudar tanto depois de eleito, a ponto de, no seu governo socialista, a rede bancária alcançar lucros tão exorbitantes que os banqueiros, ironicamente, falam até em erigir uma estátua do presidente na entrada de suas sedes. Que coraçãozinho, non? (*) É MÉDICO

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