Opinião
Mulheres
PATRÍCIA TENÓRIO * Vida e amizade. Comemoravam. Especiais, traziam no peito o orgulho de ser diferentes, maiores, únicas. Desafiavam padrões, lutavam pelo direito à felicidade. Total, absoluta. Nada de meio-termo, mais ou menos. Não, não era suficiente. Ou tudo ou nada. Viver esta passagem na Terra de maneira intensa, mergulho neste mar profundo, sorver as delícias, paciência, sabedoria nas dores, aprender, crescer. Parir mulheres iluminadas, coragem, cabeça erguida quando humilhadas, saber o valor, pedras preciosas. Teimosas, insistiam: risco, amar, serem amadas. Infinitamente. Talvez não descobrissem naquela vida, nas outras, quem sabe? O importante, dar-se o direito, chance de tentar desta vez, gastar este cartucho por uma causa nobre. Dignidade, amor-próprio, auto-estima. Viram tantas mulheres, mães, irmãs, primas, amigas, nem tentarem. Apenas aceitaram, calaram, morreram um pouco cada dia. Amargura, pérolas presas nas próprias conchas. Sabiam, escolhas e conseqüências, sejam quais forem. Pagavam o preço dos caminhos, esquinas, destinos. O medo lhes invadia a alma. E se não desse certo? Enterrar sonhos em covas, viver de banalidades, igual a tantas. Tão mais fácil, seguro, prudente. Caminho já trilhado, conhecido. Mas então desperdiçariam os dons, as bênçãos. Já não poderiam olhar o passado e se orgulhar de serem mulheres, inteiras, donas das rédeas da vida, poder mudar, quebrar paradigmas. Despediam-se de amores vãos, força para não desistir. Valiam mais, podiam mais. Lançar-se ao sabor do vento, vida, Dele. Confiar nos desígnios, caminhar segurando na mão Daquele que tudo pode, tudo provém. Missão, única estrada possível, encontrar paz, felicidade. E naquele momento, abraçadas, choravam. Não, não de tristeza, alegria. Saberem-se iguais, lobas, selvagens, à frente do tempo, vanguarda. Provar a que vieram e que outras também podem, liberdade, sonhos: amar e amar... (*) É ESCRITORA