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Opinião

Mortes no campo

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HUMBERTO MARTINS * Todas as instituições e pessoas que têm alguma parcela de responsabilidade na condução dos assuntos brasileiros precisam dar sua contribuição para que não se repitam episódios como o do assassinato da irmã Dorothy Stangl, religiosa nascida nos Estados Unidos, que há 40 anos desempenhava sua missão no Brasil com inexcedível dedicação. A bem da verdade, é necessário destacar que o episódio da morte da religiosa, no Pará, só teve a enorme repercussão registrada por se tratar de uma freira, além do mais, originária dos Estados Unidos. Na verdade, mortes violentas no campo do Brasil acontecem com uma freqüência preocupante, sejam as vítimas, camponeses sem-terra, funcionários de fazendas ou pertencentes a outras categorias. São essas vítimas, herdeiras de mais de um século de omissões e contemporizações que acumularam na zona rural problemas os mais variados. Na maior parte do País, o trabalho e a determinação de empresários e trabalhadores transformaram o Brasil em grande produtor de alimentos, capaz de abastecer satisfatoriamente o mercado interno e bater sucessivos recordes de exportação. Mas permaneceram muitas zonas onde predominam o latifúndio improdutivo, a fome e o subdesenvolvimento que estão nas raízes dos crimes que se perpetram com inquietante freqüência. Esses problemas transbordaram, durante várias décadas, para as cidades que receberam milhões de trabalhadores rurais e suas famílias, deslocados pela falta de oportunidade de trabalho. A retomada do crescimento econômico dos últimos meses, mesmo em dimensões insuficientes, conteve e até inverteu parcialmente esse fluxo em determinadas áreas onde se acentua a atividade agrícola, agroindustrial e pastoril. Mas, em contrapartida, agravaram-se as tensões em outros pontos, como no Pará. Apenas culpar os governos federal, estaduais e o Judiciário, entre outras instituições, pode satisfazer o ego de algumas personalidades, mas não contribui para evoluir a situação no campo. Mais do que pronunciamentos e providências espasmódicas, provocadas pelos acontecimentos, é necessário ocupar os vazios provocados pela falta de educação na área rural, pela presença insuficiente das polícias, do Ministério Público e do Judiciário, entre outras instituições. Esse é um trabalho hercúleo, tais as dimensões ciclópicas das tarefas a enfrentar, pois ultrapassa as fronteiras oficiais para se projetar por toda a sociedade, pelos formadores de opinião pública, pelas organizações não-governamentais e, repetimos, por todos aqueles que têm uma parcela de responsabilidade na missão de fazer deste país uma nação harmônica e estável. (*) É DESEMBARGADOR DO TJ/AL

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