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Opinião

Os médicos do impossível .

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Cristian Bernadec escreveu dois best-sellers no pós-Segunda Guerra mundial: “Os Médicos Malditos”, dedicado às atrocidades cometidas pelos médicos nazistas contra os judeus, os deficientes físicos, os doentes mentais e outras minorias, onde predominava a orientação de Himmler (1941) - “Num campo só se contam os válidos e os mortos, os doentes não existem” -, e “ Os Médicos do Impossível”, descrevendo a saga dos médicos judeus deportados para os campos de concentração, onde, sem remédios nem aparelhagem cirúrgica, mas atendendo aos prisioneiros, eles alcançaram resultados surpreendentes, verdadeiros milagres.

Bernadec conseguiu informar-se junto a 150 médicos, 100 enfermeiros e 300 judeus franceses deportados - eles protegeram, esconderam, operaram e curaram companheiros de prisão. Tal inquérito, sem precedentes, foi apoiado ainda em sessenta depoimentos escritos pelos sobreviventes de Mauthausen, Buchenwald, Dachau, Auschwitz, e, mesmo diante de tanta dureza e intensidade dramática, este livro contém uma mensagem de esperança.

A humanidade esperava que a barbárie pudesse ter chegado ao máximo naqueles campos de extermínio, todavia, o sangrento ataque do Hamas na fronteira de Gaza contra centenas de civis, quando sociologicamente, não há defesa moral possível, desencadeou uma retaliação brutal contra o Hamas que inclui a população civil daquela cidade. Usando o mesmo critério moral, existiria respaldo para essa amplitude da retaliação que em seu bojo envolveu o Hospital Batista com centenas de mortos?

As narrativas contraditórias sobre os autores desse atentado ao hospital (na guerra, a primeira vítima é a verdade) têm como resultado inevitável (e previsto) o acirramento das hostilidades regionais, dando amplo espaço para a realpolitik do Oriente Médio, que divulga que os atos terroristas do Hamas são frutos de décadas de ocupação abusiva dos territórios palestinos pelos israelenses. Essa realpolitik ensina também que, se você ataca seu inimigo, ele fará o que puder com força e raiva redobradas, e não existe maior fonte para o ódio do que a falta de esperança

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Esperávamos que as atrocidades cometidas pelos nazistas jamais se repetissem, e que médicos não precisassem voltar a praticar uma “medicina impossível” como é a que atualmente eles realizam sob bombardeios em Gaza para a população civil, sempre a vítima majoritária das guerras. Nós médicos devemos acolher com solidariedade e empatia absolutas as vítimas de ambos os lados, conforme a citação feita por Pasteur (1886) na introdução de “Médicos do Impossível”: “A um infeliz não se pergunta - qual é a tua nacionalidade? Que religião professas? Diz-se-lhe: - se sofres, vem a mim que eu te consolarei! É quanto basta!”

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