Opinião
O Bonfim, um alagoano .
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Conheci o Eduardo Bonfim quando éramos pixotes e morávamos próximos no Farol. Ele já tinha despertado seu intenso interesse por livros e por assuntos que nos pareciam acima das nossas compreensões juvenis e já apresentava um perfil quixotesco que o acompanharia por toda uma vida.
Estudamos cursos superiores diferentes e só o reencontrei e outros amigos da juventude depois de formados e batalhando pela sobrevivência. Bonfim, advogado e servidor público, assumira forte liderança na esquerda, especialmente na defesa da democracia e dos direitos humanos espezinhados no regime militar. Sua atuação política buscou a conciliação com o centro e a direita democrática, tão necessária à redemocratização para a qual contribuiu participando dignamente como vereador, deputado estadual e na bancada federal alagoana.
A notável Vera Romariz escreveu: “Quando um cidadão da maior qualidade humana e política como Eduardo Bonfim se vai, sinto enorme e irreparável tristeza. Apesar de termos sido contemporâneos, tendo a mesma idade, ele representou para minha geração um referencial de comprometimento social político. Erudito, inteligente e afável, era um líder inato da esquerda brasileira de nosso tempo, acenando para a necessidade de uma sociedade mais humana e justa”.
Há tempos ele desaparecera, mas por seu equilíbrio e moderação, por ser um homem conciliador e civilizado, Bonfim, frequentemente era procurado e consultado em momentos críticos por figurões da política local com relevância no Planalto. Muitos criticam como, mesmo depois de Stalin, pessoas tão especiais continuaram atrelados às utopias. Eis um dilema sociológico e filosófico: uma hipótese é que elas continuam acreditando que o ser humano possa ser redimido, e depois de tantas tragédias possa finalmente conviver com a fraternidade, a solidariedade e a igualdade, aquelas ideias que (ainda) constam dos cânticos fervorosos da Marselhesa, mas que ninguém cumpre.
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Pessoalmente, sou cético sobre as possibilidades dessa redenção humana, e acredito que unicamente a democracia pode ir podando os seus piores e mais animalescos instintos; todavia, nem tudo foi perdido daquelas utopias de 1917, até porque se dos bolcheviques nada restou, dos derrotados mencheviques ficou a socialdemocracia, que é uma forma humanizada de convivência do capitalismo com o social. É praticado no norte da Europa com aceitáveis resultados se comparados com outras situações pelo mundo. Talvez seja o limite do possível para a natureza predatória do homem. Ela nos deu o Plano Real, redenção de nossa economia.
O Eduardo persistiu até o fim pelo caminho proposto por Mario Quintana: “Se as coisas são inatingíveis...ora!? Não é motivo para não querê-las.../ Que tristes os caminhos se não fora/ A presença distante das estrelas!”. Que Bonfim descanse em paz, acalentado por suas utopias. Deixa-nos saudades e a realidade do front humano, que é cada vez mais desagregador, desolador e violento. Humanos são cada vez mais desumanos. Precisamos e precisaremos sempre de novos Quixotes e que eles tenham bom humor como o Bonfim.