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Combatentes e c�ticos

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EDUARDO BOMFIM * Recentemente, em caderno especial de um dos grandes jornais de São Paulo, foi publicada extensa matéria, de várias páginas, sobre a imortal obra de Cervantes, Don Quixote de La Mancha. A linha editorial buscava refletir qual a essência, a mensagem fundamental do grande escritor. Sabe-se que Cervantes inspirou-se na realidade que o circundava. Criticava, entre outras coisas, os valores morais que se impunham a despeito dos códigos de comportamento típicos dos cavalheiros que declinavam. Uma nova realidade econômica, mais progressista, produzia as mutações em todas as esferas da sociedade, atropelando o espírito e a conduta dos fidalgos. Sucumbia uma era e nascia outra. Daí o personagem de ?triste figura?, acompanhado pelo seu inseparável escudeiro, gordo, descambando ao grotesco. O Homem de La Mancha também não fugia ao estereótipo de uma figura exótica, alternando momentos de lucidez com alucinações, delírios de toda sorte, confundindo moinhos de vento com monstros, adversários de imensa estatura contra os quais se batia corajosamente sem qualquer possibilidade de êxito. Daí a pergunta: por que, então, este personagem se transformou no símbolo universal do herói enfrentando poderosos inimigos, tiranos mesmo, caracterizando a resistência aparentemente impossível contra regimes e sistemas autoritários? Talvez a resposta decorra de vários elementos de caráter simbólico que permeiam toda a obra. Mas conduz-nos à observação de que nem tudo o que é novo, necessariamente, possa ser eticamente justo, válido. Ou o seu contrário: tudo que o velho contém vem a ser inevitavelmente ilegítimo. A elegância no trato social, a postura digna, a ?nobreza? de caráter, a firmeza nos princípios, a sede de justiça, a coragem de lutar contra adversários aparentemente invencíveis quando a regra é ceder ao conformismo, a transparência no combate de idéias, a lealdade nas relações pessoais são, até os dias atuais, parâmetros de comportamento. Ao contrário, a famosa Lei de Gérson, ?é preciso levar vantagem em tudo?, difundida anos atrás em uma propaganda de TV, é tida como abominável pelo senso comum do povo. Mas trata-se de uma regra difundida pelo sistema vigente. A busca do lucro, do sucesso pessoal ou profissional tudo permite, tudo justifica. O poeta português Fernando Pessoa possuía outra visão, a de Cervantes e seu personagem, quando vaticinou: ?Tudo vale a pena quando a alma não é pequena?. É possível considerar o fato de que cada período histórico, mesmo ultrapassado por outro mais avançado, deixa como legado ao processo civilizatório algumas verdades universais. De uns tempos para cá, ressurgiu também no campo progressista uma onda de ceticismo, de niilismo. Há pessoas que se tornam porta-vozes da descrença absoluta, total, irremediável. Lastreiam suas opiniões numa dissociação entre a complexidade que encerra os movimentos da sociedade e a política. De tal forma que, seguindo os passos de tal concepção, a política torna-se algo inviável ou fétido. A disseminação deste ponto de vista acaba por afastar inúmeros talentos da luta transformadora, deixando a área livre para os conservadores nadarem às braçadas, sem concorrentes. Assim, há uma sintonia fina entre os que abjuram a atividade militante e as elites conservadoras. No duelo entre a aridez desértica de esperança e de combate dos céticos antigos e pós-modernos, e o doce delírio das utopias de Cervantes e seu Quixote, a humanidade sempre preferiu este último. (*) É SECRETÁRIO-EXECUTIVO DO MINISTÉRIO DA COORDENAÇÃO POLÍTICA

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