Opinião
Inf�ncia mais pobre
RONALD MENDONÇA * Mesmo pouco afeito aos atalhos da burocracia que culminam com o tombamento de um monumento, desconfiei de que não iria dar em nada o comovente esforço daquele grupo que tentou impedir a derrubada da ?Casa Rosa?, charmosa construção da orla da Pajuçara. No local nascerá um edifício e daqui a algum tempo poucos se lembrarão do que lá existia. Na realidade, em breve não restará qualquer resquício do que foi a Pajuçara até os meados do século passado. A ?valorização do metro quadrado? e outros apelos da sociedade dita ?de consumo? estão pouco se lixando para valores históricos e culturais, meio ambiente, e outros que tais. As crises de xenofobia tentando crucificar o gringo italiano (atual proprietário da ?Casa Rosa?) como o abominável predador estrangeiro é puro jogo de cena. Está ?assim? de conterrâneos conspurcando nosso patrimônio, nossas riquezas naturais. É só olhar pros lados. A grande verdade é que a descaracterização da cidade é universal e, ao que parece, fora de controle. Não é de agora, por exemplo, que as aristocráticas fachadas nas ruas do centro vêm se transformando em bizarros monstrengos povoados de penduricalhos publicitários e ninguém liga. Não fossem iniciativas isoladas, cada vez mais raras e muitas vezes estóicas, talvez o belo conjunto arquitetônico do pé da Ladeira do Brito servisse hoje de estacionamento ? sina terminal de toda casa velha do centro depois que os bancos pararam de investir na Rua do Sol. A história é comum, mas pode ser repetida: anos atrás, um amigo soube, por debaixo dos panos, que a herança de uma tia velha estava para ser tombada pelo Patrimônio Histórico. O homem ficou louco. Última chance de fazer um caixa extra, da noite para o dia transformou uma jóia arquitetônica da Rua Nova em estacionamento, garantindo assim uma velhice menos atropelada. Pessoalmente, sofri na carne a destruição, em Bebedouro, das casas da ?calçada alta?. De fato, na altura do número 3703 da Rua Cônego Costa, vizinhas ao Asilo das Órfãs, havia 3 casas antigas que se destacavam por estar situadas muito acima do nível da rua - com o detalhe de as casas de frente também serem elevadas. Claro que era uma evidência de que o morro tinha sido rasgado para fazer a rua, peculiaridade única em todo o bairro. Sem levar em conta que ali passei os meus melhores dias, as construções tinham o cheiro dos desbravadores. Antiga residência do gago e piedoso Monsenhor Tobias, célebre professor do Liceu Alagoano e, nas horas vagas, emérito contador de piadas picantes, a demolição da ?calçada alta? certamente deixou minha infância mais pobre, mas sobretudo privou Bebedouro de um dos seus referenciais mais singulares. (*) É MÉDICO E PROF. DA UFAL