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Opinião

Um doloroso fen�meno

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JOSÉ MEDEIROS * Na escola primária, aprendi que a seca é um fenômeno natural, que acontece de tantos em tantos anos, conseqüência do atraso na precipitação de chuvas ou de sua ocorrência irregular. De tão repetida, aprendi, de cor, essa definição. Muitos anos depois apareceu um outro conceito, que não sei a quem atribuir: a seca verde. Uma chuva rala e o solo esturricado fica coberto de vegetação rasteira, um pouco d?água é jogado nos barreiros e açudes, cobrem-se de folhas os marmeleiros, arbustos típicos do Sertão. E quem olha de longe imagina que não existe seca, que há somente a cruel indústria da seca e a coisa fica por aí. Ao longo do tempo desfilaram ? como numa tela cinematográfica ? criações de órgãos, entidades, políticas regionais, ações emergenciais que pareciam definitivas (cestas básicas e frentes de trabalho). Agora, as novidades dos últimos anos são a transposição do Rio São Francisco e a ?revitalização? de áreas ribeirinhas. Quando se fala em ?revitalização? do Rio São Francisco (que não chega), isso faz lembrar o empobrecimento de uma outra região, a região sertaneja, vitimada por secas sucessivas. Um doloroso fenômeno secular, para o qual o país não encontra soluções adequadas. Pessoas morrem de fome e sede. Projetos de ajuda não conseguem vencer as etapas burocráticas dos ministérios. Culpam irregularidades anteriores do aproveitamento da seca por políticos inescrupulosos. E, enquanto isso, a população sofre pela falta de água e de alimentos. Soluções minguam, a população padece. Os índices, nem sempre satisfatórios, de educação, saúde, produtividade, preocupam governantes e governados. Como pensar em educação, como fator de mudanças ou instrumento num processo de intervenção social (palavras tão usadas, atualmente), se a população não tem o mínimo indispensável de condições de vida e de sobrevivência? Como pensar em saúde, se não há educação sanitária? A improdutividade é conseqüência, o empobrecimento, também. É um círculo vicioso que não se tem conseguido quebrar. Encontro, num documento oficial, um parágrafo que me chama a atenção: ?No semi-árido o Canal do Sertão, projetado há 20 anos, é outro ponto importante da agenda de de-senvolvimento econômico. São quase 300 mil hectares de áreas agricultáveis na região, com sol, grande luminosidade, propícios para a fruticultura, que tem um grande mercado brasileiro e internacional?. Não é possível eliminar o ciclo da seca, embora doloroso. Mas é possível conviver com o problema, como acontece em outros países. Quando estive em Israel, impressionou-me o tratamento da agricultura irrigada, da água potável, possibilitando à população desfrutar um bom padrão de vida. Uma carta de um amigo da região sertaneja relata ?sofrimentos, desesperos, caminhadas de quilômetros para ter uma lata de água barrenta, nada na panela para comer. Crianças sedentas, famintas, mulheres ressequidas, sertanejos enrugados pela inclemência do sol...? Mais parece um texto graciliânico. As soluções tardam. ?Revitalização? da região sertaneja? Utopia? (*) É MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO E DE SAÚDE

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