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Opinião

As palavras

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EDUARDO BOMFIM * As mais poderosas armas do mundo são as palavras constituídas em pensamentos. O poeta pernambucano afirmava: o sertanejo fala pouco. Porque as palavras de pedra ulceram a boca e no idioma pedra se fala doloroso. Daí, também, ele fala devagar. Tem de pegar as palavras com cuidado, confeitá-las na língua, rebuçá-las, pois toma tempo todo esse trabalho. Elas podem mover multidões, agigantar causas, trazer esperanças, construir projetos, deslocar montanhas e alterar os rumos da história. Outras vezes, provocam cataclismos sociais, malignas, produzem o ódio coletivo ou individual. As bandidas machucam as pessoas ou sociedades e humilham os passos apressados dos que buscam o trabalho na rotina da vida. Se vadias, estas nada significam, melhor não terem sido pronunciadas. Na política, as palavras são instrumentos de trabalho, como no jornalismo, no ofício da literatura, dos pastores de almas, etc. Há pessoas que possuem incontinência verbal e outras que se recusam a falar, evitando o compromisso das suas opiniões. Os primeiros são temerários porque falam demais e quase sempre se precipitam em suas posições e os últimos merecem apurado cuidado porque, sinuosos, cultivam a deslealdade na luta de idéias. Mas é importante considerar o silêncio em certos períodos. Porque ele pode ser uma veemente maneira de expressão. Em determinados momentos, são bombásticos, definitivos. Há silêncios que são aplaudidos de pé, ovacionados pelas multidões. Há, inclusive, silêncios heróicos quando a regra é falar o que desejam os tiranos. As palavras constituem em seu conjunto a língua de um povo, sua cultura, sua fronteira primeira, antes mesmo da territorial. Muitas das vezes na História, como resistência, é o último recurso perante a nação humilhada, invadida. Neste caso, ela se transforma em panfleto, hino, conclamação à luta. Pelas palavras, revelamos nossas posições e, como declarou o historiador Nelson Werneck Sodré: quem não tem posição política não tem alma. Assim, é bem melhor nos expressarmos, mesmo correndo o risco do erro, do que calar e consentir o livre trânsito do equívoco, da mentira e até da infâmia. A palavra exige, em muitos momentos, coragem de se expor ao julgamento público, de enfrentar o debate, de ser condenado ou considerado. Porém, não devemos buscar o aplauso ou absolvição quando nos expressamos. Sendo sagrada, a palavra é a busca da verdade, da interpretação da realidade sobre a qual nos debruçamos. É bom ressaltar que elas não são privilégios dos filósofos ou doutores. Os analfabetos, muitas vezes, usam-nas bem melhor que os que se dizem cultos, guardiões do templo da sabedoria. Porque a cultura não é necessariamente sinônimo de estilo ou refinamento das academias. É algo bem abrangente. Refere-se ao conhecimento acumulado de um povo. Do seu sofrimento como deserdados da terra. E a humildade gera uma imensa riqueza de vida que se traduz em profunda experiência, verbalizada em conceitos sobre tempos e ventos, nem sempre em concordâncias gramaticais. Através do seu milenar itinerário, o ser humano encontrou-se com o verbo e abandonou os sons guturais, os sinais primários e começou a se expressar com as palavras. Daí por diante, cada vez mais, do simples ao complexo, o vernáculo e a política foram evoluindo pelos séculos. Mesmo quando apropriada pelos poderosos ou opressores, a palavra é, em última instância, instrumento de libertação espiritual e material das sociedades e nações. (*) É SECRETÁRIO-EXECUTIVO DO MINISTÉRIO DA COORDENAÇÃO POLÍTICA

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