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As tramas

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EDUARDO BOMFIM * O Leopardo, personagem central do grande romance homônimo de Giuseppe Tomasi, o príncipe de Lampedusa, sentiu-se iluminado com a frase que ouvira: ?Se não estivermos lá, eles fazem uma república. Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude?. A Itália vivia uma época de restauração, de unificação sob a liderança de Garibaldi. E a formulação descrita acima revela uma trama da aristocracia siciliana, buscando adaptar-se aos novos tempos, com o objetivo de prolongar sua existência já moribunda à época. A História encontra-se cheia de tramas, de movimentos, avanços e recuos. Existem todos os tipos delas. As boas, estúpidas, ordinárias, pequenas, inúteis mesmo. Tramas existem no mundo público e nas corporações privadas. Nas eleições para diretorias de sindicatos e entidades estudantis. Há tramas de ódio, de ressentimentos, de inveja. Famosas são as tramas de amor, contadas em grandes romances ou em folhetins baratos. Elas se encontram também na literatura de cordel, na percepção do realismo fantástico no povão, cheias de magia, mistérios e verdades. Algumas decidem os destinos de uma nação. Ou pelo menos de um determinado período. Quando, após a derrota da campanha das Diretas Já, memorável campanha cívica que mobilizou a maior mobilização popular da História do Brasil, urdiu-se um magnífico movimento visando derrotar o regime militar no Colégio Eleitoral ? o que equivalia a enfrentar o poderoso inimigo em seu próprio terreno ? ali desenvolveu-se um complexo jogo de posições nos bastidores, além de imensas multidões nas ruas. Era fundamental atrair dissidentes do arbítrio, semear confusão, demonstrar que a ditadura agonizava e que todo o esforço de procrastiná-la seria em vão. Costurar o apoio de entidades representativas da sociedade civil e das esquerdas. Produzir uma ampla frente pela democratização do país. Um movimento político espetacular, uma notável trama vitoriosa, em que a nação hoje comemora vinte anos de razoável democracia ? o mais longo período de nossa história republicana. Em sentido contrário, a derrubada do governo democrático e popular de Allende no Chile foi uma das conspirações mais tenebrosas da América do Sul. Uma tragédia que ceifou dezenas de milhares de vidas em torturas inomináveis. O poeta chileno e Prêmio Nobel de literatura, Pablo Neruda, gravemente doente, não suportou o que os seus olhos viam e seus ouvidos ouviam. A dor de toda uma nação entranhou-se em sua alma como um raio e ele sucumbiu em sua Isla Negra. Uma ferida que jamais cicatrizará naquele belíssimo país. Algumas começam e terminam sem que delas se tome absolutamente conhecimento. Outras, inicialmente pequenas, visionárias, rolam cabeças de reis e rainhas, geram multidões de esperanças e inauguram regimes, tal como a Revolução Francesa. Uma, improvável, incerta, conduziu Lênin, clandestino, ?rumo à estação Finlândia? e promoveu a primeira revolução proletária do mundo, vitoriosa. Os nossos próprios passos são de alguma forma constituídos de consciência, iniciativas, tramas e acasos. Do contrário, Paulo Freire, o da pedagogia do oprimido, jamais teria afirmado: ?Não nasci marcado para ser um professor assim (como sou). Vim me tornando desta forma no corpo das tramas, na reflexão atenta sobre outras práticas?. Ninguém nasce feito. Vamos nos fazendo aos poucos, na prática social de que tomamos parte. Enfim, tramas, é preciso saber distingui-las como os cogumelos nas florestas, os bons e os venenosos. (*) É ADVOGADO ALAGOANO E SECRETÁRIO-EXECUTIVO DO MINISTÉRIO DA COORDENAÇÃO POLÍTICA

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