Opinião
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MARCOS DAVI MELO * Terry Chiavo era uma moça bonita e saudável. Gozava a vida boa da classe média em um país rico como os EUA. Uma isquemia cerebral deixou-a em cima de uma cama como um vegetal. Não se comunica com o mundo há dez anos, mas o marido insiste que ela não gostaria de viver assim e quer deixá-la morrer. Esta semana, a Justiça lhe deu ganho de causa. No filme ? Mar adentro?, uma situação semelhante e também real foi mostrada: um jovem marinheiro quebrou o pescoço e passou 25 anos em cima de uma cama, só mexendo a cabeça, mas com uma diferença fundamental em relação ao caso da americana: tinha pleno domínio de sua consciência. O marinheiro de ?Mar adentro? não desprezava a vida, muito pelo contrário, a amara tanto na época em que tinha saúde e era auto-suficiente, que jamais se conformara com aquela situação de vegetal inútil. A sua opção para encerrar o que desde o início se tornara um inferno insuportável - em que pese a presença e o carinho dos familiares - foi sempre consciente e madura. Não se pode dizer o mesmo da americana: o que existe são as informações de seu marido de que ela conscientemente não aceitaria aquele tipo de vida. Porque confiar ou desconfiar do cidadão? Temos subsídios para uma opção, ou seremos guiados por nossas convicções pessoais ou religiosas sobre o assunto? No exercício da minha profissão, tenho acompanhado incontáveis situações parecidas. Quando todos os recursos da medicina foram usados e não houve melhora. Quem já passou por isto, sabe, que, em muitas ocasiões, se clamou a Deus para que tivesse misericórdia e abreviasse o sofrimento dos envolvidos, sem que o alívio viesse. Porque, nestas situações em que a dignidade de uma vida já se foi há muito, a capacidade de resistência e a energia dos familiares já se esgotaram e eles próprios já estão a ponto de sucumbir, se apegar a posições conservadoras ou dogmas religiosos, em resumo, é prolongar indefinida e cruelmente uma existência que há muito deixou de ter qualquer conotação humana, ou qualquer vestígio de dignidade. (*) É médico