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Major

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Patricia Tenório* - E por que Major? - Não gosto muito desse nome não, entortou a cara. Depois vão dizer por aí que eu que me apelidei. Foi o povo mesmo, esses que me dão ouvido, têm juízo, resmungou. Tão pequena, grandes óculos, arame atrás das orelhas para segurar. Melhor parte do dia, colocar no colo a Professorinha, apelidou. Contar histórias, repetia sempre a mesma e ela nem percebia. Tomara que não descubra, tomara. Não sabia tantas histórias bonitas, vida difícil. As mãos pequeninas sumiam nas dele, rudes, tanto trabalho, pouca instrução. Não se arrependia de nada, necessário. Era para eles, para ela. Saber que teriam vida melhor, conforto, segurança. Mesmo tendo sido duro, noites na moenda, andar léguas de chão batido, brigar pelo que era seu. Valente, cabra da peste, diziam. Mas a brabeza sumia, quando corria para chegar na hora, fim de tarde, e dar um abraço apertado, pegar no colo, cheiro de banho, lavanda, cria do seu doutor, quanto orgulho do filho. Mas não sabia dizer isso, não era coisa de macho. Com menina podia, ninguém falava não. Era até galante, a fama que tinha, ria pensando. Dava as mãos para ela brincar, alisar com os dedos finos. Tocava as mãos, grossas. Olhos profundos, alegres, tristeza. Adorava observar as orelhas, enormes, dava para ouvir o mundo. Abraço forte, nada lhe aconteceria. Tão alto, quase um deus. Sério, não ria muito não. Mas era tão divertido. Pedia mais, que repetisse a história, amava ouvir muitas e muitas vezes. A mesma, a da corujinha. Defendia seus filhotes, eram tão feios pros outros. Para ela não, eram os mais belos do mundo. Amava-o desde que se lembrava, parava para contar as histórias, todo sujo de graxa, lama. Não ligava não, até gostava do cheiro de terra, daquele caldo, como é mesmo o nome? Ah, vinhaça. Mesmo chapéu, não tirava da cabeça, deixava que pegasse, colocava na cabeça miúda, engolia os olhos. Enorme. Tudo enorme. Era de tarde, já estava quase anoitecendo. E para onde iriam as corujinhas, estavam a salvo? Na outra vez, dizia. Será que agüentaria a espera, a saudade? Céu rosado, sol indo embora. Eram mesmo um do outro. Talvez outras vidas, acreditava ele. Vai ser assim para sempre, sonhava ela. E Deus, generoso, observava os filhos amados, abençoava com a promessa que ficariam juntos, de alguma maneira, para sempre... (*) É escritora e colabora em publicações sobre literatura

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