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Um sacrif�cio de amor

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José Medeiros * Ouvi, recentemente, uma historieta que reproduzo para o leitor. Um empresário, já idoso, bem sucedido, familiarmente realizado, vive crises de angústia e de ansiedade. O que o perturba, afinal? Tem tudo para ser feliz. Agora, mais uma alegria. Sua neta, muito amada, recebeu o grau em medicina. E, financeiramente, os vastos campos do tempo não lhe foram ingratos. Por que, então, tantas preocupações? Atormentado por essas crises resolveu procurar um socorro psicológico. Iniciou um programa de terapia e, na seqüência das sessões, reavaliou sua infância. Criado pelo pai, não conheceu sua mãe, que morreu algum tempo após o seu nascimento. Dela, nada mais sabia. Seu pai se mudara para outro Estado logo após o falecimento. A psicóloga aconselhou-o voltar ao local onde nascera. Assim o fez. Conheceu suas tias e outros parentes. De conversa em conversa, começou a encaixar o quebra-cabeça de seu nascimento. Uma história de amor e de ternura. Sua mãe, grávida de 3 meses, encontrava-se doente. Não havia médico na cidade. Corria o ano de 1947. Precisou ir à capital, em busca de socorro médico. E aí, uma surpresa brutal. Estava tuberculosa. Naquela época, não havia, ainda, a quimioterapia e os antibióticos de hoje, que debelam esse mal. Os remédios, então, utilizados, eram tóxicos, muito tóxicos, e, como conseqüência do tratamento, ela perderia o bebê. Essa foi a informação que o médico lhe deu. O aborto seria inevitável. A mãe poderia salvar-se, o filho morreria. Estranho dilema. Era ela ou aquele ser que crescia em seu útero. O sentimento da maternidade falou mais alto. Contrariando opiniões familiares decidiu não fazer o tratamento. Explicava que a vida só tem sentido quando traduzida por um grande amor. A tuberculose evoluiu, mas não comprometeu o nascituro. A mãe morreu dois meses após o parto. O empresário começou a compreender que as razões de suas indizíveis angústias poderiam estar ligadas a essa causa remota. O que representava ele diante de um sacrifício tão grande como aquele que sua mãe fizera. Uma heroína, sem dúvida, que não recebera glórias ou reconhecimentos. Por que nunca lhe haviam contado? A análise psicológica ajudara a decifrar o enigma de sua origem. Depois disso, muita coisa mudou. Ele e a esposa criaram uma fundação que cuida de mulheres grávidas, enfermas, que necessitam de cuidados especiais. O sacrifício de uma vida está ajudando a salvar muitas outras vidas. (*) É médico ex-secretário de Educação e de Saúde

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