Opinião
Da lucidez
EDUARDO BOMFIM* A vida mostra que nem sempre um experiente militante, ou intelectual orgânico, encontra a lucidez necessária para interpretar os fenômenos intrincados da sociedade. Sempre considerei, e assim permaneço achando, o escritor português José Saramago brilhante e uma das melhores inteligências contemporâneas. Leio em um recente caderno de cultura do Rio de Janeiro que o autor de Jangada de Pedra e vários outros excelentes livros declarou em janeiro passado, no Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre, que a utopia é uma palavra que não tem significado para quem vive na pobreza. Para a minha surpresa e inesperada alegria, vejo o comentário do escritor moçambicano Mia Couto sobre o mesmo assunto - a utopia e os pobres - no mesmo jornal e na mesma edição. Diz ele: o que faliu foram os modelos teóricos (até então considerados cientificamente consistentes, na forma como vinham sendo aplicados, ouso assegurar). Mas afirma que o povo não pode esperar que eles sejam construídos (ou apostos aos novos tempos, com base nas experiências passadas do século 20, atrevo-me a acrescentar). E prossegue Mia Couto: o pessimismo é um luxo que só os ricos podem ter. Os pobres necessitam criar uma resposta fundada na alegria, na rejeição do niilismo. Não sou pobre, continua ele, mas vivo em um país que já esteve classificado entre os três mais pobres do mundo. Tenho dúvidas sobre esta coisa de classificar a miséria e a pontuar numa espécie de top mais, top menos. Não acho, diz o moçambicano, que os pobres da minha terra tenham abandonado o sentido da utopia. Não porque eles tenham construído um edifício teórico revolucionário imaginário ou erguido uma percepção integrada de como entender e mudar o nosso mundo. Mas eles vivem uma utopia que é a sua disponibilidade para criar alegria, música, arte, riso. Não se trata de romantizar a miséria, enfatiza o escritor. Mas há que fazer justiça a esta habilidade espantosa de converter o negativo em positivo, conclui Mia Couto. Tive a boa fortuna de conhecer José Saramago em Portugal, ao lado do professor Florestan Fernandes, já falecido. Honrado cidadão, fascinante contador de histórias, militante comunista. Em Angola, o digno revolucionário e excelente escritor Pepetela, autor de ?Geração da Utopia?. Em Moçambique, Mia Couto, ao lado da mulher, num jantar na embaixada brasileira. Dos três, Saramago pareceu-me o mais lúcido e maduro, e Mia Couto o mais politicamente ingênuo. Pode até ainda ser assim, mas não nestas duas entrevistas. (*) É secretário-executivo do Ministério da Coordenação Política