Opinião
Solene banana
RONALD MENDONÇA * Acusado de atitude racista, o jogador argentino Leandro Desábato, do Quilmes, sentiu na pele o rigor das ?duras? leis brasileiras. Depois de chamar um adversário (com o sugestivo nome de Grafite) de ?negrinho? e ?macaco?, Desábato recebeu ordem de prisão quando ainda estava no gramado do Morumbi, amargando, posteriormente, desagradável noitada na companhia de presos comuns. Não há dúvidas de que a detenção teve um particular gostinho de vingança, sobretudo quando se sabe que os argentinos sempre implicaram com a cor da nossa pele, fazendo disso um motivo a mais para alimentar detestável complexo de superioridade. Problema crônico nos campos de futebol, as agressões mútuas - físicas e verbais - fazem parte de consagradas táticas para desestabilizar o adversário. Socos, cotoveladas, beliscões e cusparadas são recursos obrigatórios. Como são praticados ?fora do lance?, os árbitros ou não as presenciam ou costumam fazer vista grossa. Felizmente o olho eletrônico das câmeras de TV vêm denunciando esses abusos e os agressores têm sido admoestados com processos, suspensões e multas. Já é alguma coisa. Mas nem só de argentinos vive a suja crônica do futebol. Recentemente um jogador brasileiro foi flagrado pela TV chamando o adversário de ?neguinho f... da p...?. A curiosidade desse fato é que o agressor tinha a pele tão escura quanto a do companheiro. A verdade é que, para alegria da nação, o argentino perdeu o jogo e ainda por cima viu o sol quadrado. Lamentável é que tenha saído tão rápido. É que no frigir dos ovos nossas leis são frouxíssimas. A esse respeito relembro a recente chacina na baixada fluminense quando 29 pessoas foram friamente assassinadas. A brutalidade do ato fez com que o douto ministro da Justiça, Thomaz Bastos, prometesse punir os culpados ?com todo o rigor da lei?. Provavelmente a emoção comprometeu o raciocínio do preclaro ministro. Thomaz Bastos jamais irá punir ninguém pelo simples fato de não fazer parte da sua função. Salvo excessos praticados em delegacias, no Brasil, até prova em contrário, quem pune é a justiça. Afora isso, o ministro faz parte de uma casta de virtuosos juristas que defende penas leves, de preferência em ambientes amenos. No caso de penas mais ?duras?, o caminho é a ?progressão? (?progressão? é o nome técnico para expressar que os bandidos são colocados na rua cumprindo apenas um sexto do tempo). Os assassinos devem receber toda a assistência possível. Às vítimas, uma solene banana. (*) É médico e professor da Ufal