Opinião
Novas verdades
Marcos Davi Melo * Maquiavel certa vez considerou prova de decadência o fato de que ?quanto mais se aproximam da Igreja de Roma, cabeça de nossa religião, menos religiosas as pessoas ficam?. Era o auge daquele período negro, que perdurou de 1470 a 1530 e culminou com o cisma protestante encabeçado por Lutero. Naquela época descrita pela obra ?A Marcha da Insensatez?, de Bárbara Tutchman, o Vaticano foi comandado por seis papas que ultrapassaram todos os limites em seus comportamentos dissolutos. Esta semana, o jornal francês Liberation? afirmou que nos últimos 10 anos a Igreja Católica brasileira perdeu 10% de seus fiéis, principalmente para as igrejas neopentecostais. O jornal afirma que o total de evangélicos quintuplicou no Brasil nos últimos 30 anos, chegando a 15,4% da população. Profundamente implantados no meio dos mais pobres, os templos neopentecostais ganharam popularidade ao propalar que podiam aliviar os sofrimentos da massa miserável. O conclave que vai eleger o novo papa vai se iniciar. O novo monarca vai precisar lidar com questões delicadas como a contracepção, o aborto, o uso das células-tronco, que no fundo estão relacionadas com o princípio de quando a vida começa, premissa que não é uma unanimidade nem dentro da doutrina religiosa. Teólogos eminentes como Santo Tomás de Aquino acreditava que a vida começava antes do óvulo ser fertilizado. A alma humana estaria despositada no espermatozóide, assim, a masturbação seria um crime semelhante ao homicídio. A proibição do uso da camisinha, que poderia reduzir o flagelo da Aids na África, não seria um dogma tão extremado quanto o de Aquino? Outras questões delicadas, como o celibato para os padres e a ordenação de mulheres, cujos precedentes históricos existem, pois clérigos ja se casaram, papas tiveram amantes e delas muitos filhos, como Alexandre VI, e mulheres já foram diaconizas serão abordadas pelo prisma do primitivismo doutrinal do Opus Dei ou pela vertente arejada da investigação teológica, preconizada pelos jesuítas e outras ordens religiosas? Vivemos em uma época de dilemas morais. O novo papa terá que acompanhar de mais de perto o seu rebanho, enfrentar com mais força e sabedoria estas novas verdades. O pontífice precisará antes possuir o espírito do colegiado do que o do absolutismo e da intransigência dogmática, que muito mais afasta do que aproxima os fiéis da igreja, como a história já tem mostrado. (*) É médico