Opinião
Uma express�o mitol�gica da vida
| Ângela Maria Brandão * Quando observo os personagens e as fantasias que desfilam no carnaval fico a me perguntar o que eles trazem do passado da humanidade? O que eles querem nos dizer a respeito dos nossos sentimentos mais ocultos? Medo, alegria, raiva, vingança, esperança, sonhos etc. Por que estes personagens se repetem de geração em geração, em várias culturas? Como se situam na atualidade, no contexto de um carnaval permeado pela violência, pelo consumismo, pelo abuso da sexualidade e pela superficialidade da vida e das relações humanas? É curioso verificar como o carnaval funciona como um momento de explosão social de comportamentos aparentemente ocultos na vida cotidiana, mas que se legitimam no carnaval e tornam-se públicos como expressão de sentimentos e desejos encobertos. A determinação da Sexta-Feira Santa é marcada pela primeira lua cheia subseqüente ao dia 21 de março. Com a influência do Cristianismo e a necessidade de tolerar os festejos tão enraizados aos costumes, o carnaval foi incluído no calendário oficial, desde que fosse preservado o período da Quaresma, quando os cristãos fazem suas penitências e abstinências. No Brasil, o carnaval chega com os colonizadores, já que era hábito em Portugal e em outras sociedades européias. Aqui sofre os efeitos da mistura das raças, que trazem em sua cultura, suas danças, ritos e expressões diferenciadas de interlocução com o mundo dos deuses, dos sonhos e da imaginação. O entrudo revive simbolicamente os períodos de guerras, cujas armas eram limões, urina e água suja. O Rei Momo, um dos símbolos do carnaval, é inspirado em uma figura mitológica, antes com características femininas, e, a partir do século XVI, adquiriu aspectos masculinos, como personagem que alegrava a corte espanhola com sarcasmo e zombarias. O que era crença e religião no mundo mítico se transforma em mercadoria na sociedade contemporânea. Os deuses gregos, protótipos da perfeição, são revividos nos corpos esculturais que desfilam seminus nos sambódromos, mostrando uma nova cultura pautada nas aparências físicas e no consumismo que movimenta uma cadeia de serviços, voltados para o culto exacerbado ao corpo. Os sambódromos se transformam em grandes vitrines de corpos esculturais que serão comercializados pela mídia junto a outros objetos de consumo. Talvez estejamos retomando a fase mais antiga da humanidade que se caracterizava pela multiplicidade de deuses momentâneos cuja fonte era a emoção subjetiva. (*) É assistente social