Opinião
Um dia para pensar
| LUCAS ALMEIDA * Pouco tempo depois de divulgados pelo IBGE os índices de redução do analfabetismo em Alagoas, que informaram estar o nosso Estado vinte pontos percentuais aquém do resto do País, entendemos que seja hoje, Dia Internacional do Livro, não uma data para celebrarmos o sucesso conquistado por esse instrumento cultural de difusão de idéias e conceitos, mas o dia para refletirmos sobre as dificuldades que obstaculizam a sua expansão e democratização. Com pouco mais de cem bibliotecas públicas, menos de dez livrarias ? a maior parte delas concentradas na capital ? e alguns raros sebos ? que sobrevivem mais por persistência do que mesmo por lucro ? Alagoas mostra que sua vocação não está nos livros. Também pudera, tamanha a pobreza e indigência que consomem a maior parte do nosso povo nas suas necessidades mais básicas. Onde não se tem um prato de comida ou um copo de água, certamente não há o que se ler. Deparamo-nos, nesse ponto, com a problemática do nordestino que tem a sua infância substituída pelo trabalho pesado. Afastado da escola e dos livros, a perspectiva de inclusão social dessas crianças através da literatura torna-se uma hipótese muito pouco provável. Contribui para o agravamento dessa situação indesejada o desgoverno de um Poder Público que não é capaz de implementar políticas efetivadoras dos direitos mais básicos do cidadão. A educação, a saúde, a habitação e a prestação de serviços públicos, de maneira geral, parecem não se concretizar plenamente na vida da maior parte dos alagoanos. Que dizer então do acesso aos livros? A exclusão social, proveniente sobretudo de um modelo econômico fechado e não diversificado, aliada à forma de governo ineficaz e ineficiente desenvolvida por nossos dirigentes, quase que nos tira a esperança de construir uma sociedade de letrados e cultos. Some-se a isso o fato de que, mesmo nas classes alta e média, a maior parte das pessoas (mais de 96%, segundo recente pesquisa realizada pela Unesco) não possui o hábito de ler, isso conseqüência, sobretudo, do modelo consumista a que aderiu o nosso povo. O sonho de semear a cultura e a literatura numa terra árida como Alagoas parece, no entanto, ser imorredouro para livreiros, alfarrabistas e bibliotecários, que, movidos pela paixão aos livros, e tão-somente por essa razão, mantêm suas portas abertas. Parabenizemos então essa gente que, na contramão dos fatos, persiste no desempenho de uma atividade tão quixotesca quanto bela. (*) É editor de livros e estudante de Direito da Ufal