Opinião
Grandes esquecidos
| RONALD MENDONÇA * Nesse abril de 2005 fico devendo uma crônica ?decente? a Tiradentes. Não só eu, mas boa parte da imprensa, que este ano teve uma crise de amnésia global e esqueceu quase completamente do ?Mártir da Independência?. Se estivéssemos nos ?anos de chumbo da ditadura? certamente muitos patriotas empolgados teriam arrebentado a boca do balão e rememorado os principais fatos da Inconfidência Mineira, ressuscitando e incensando seus heróis - inclusive poetas e musas. Talvez até o traidor, Silvério dos Reis, voltasse a ter seus instantes de glória. Quem mais tem tempo de escrever sobre essas ?velharias?? O mundo tem pressa. A bola da vez é a escolha do novo papa. Carol Wojtyla, o João Paulo II, mal esfriou completamente e já é carta fora do baralho, virou passado. Felizmente a escolha do novo papa foi rápida. O ?felizmente? vai por conta do rosário de bobagens que ?vaticanistas? de todos os credos ousaram publicar. De fato, já não dava para agüentar os prognósticos sobre o perfil ideal do futuro chefe dos católicos. É que cada comentarista queria um papa privativo, uma espécie de valet de chambre para ajudar a superar as miúdas e eternas crises morais individuais. Um dos depoimentos mais debochados de conhecido jornalista torcia para que o Vaticano se entusiasmasse tanto pelo uso de preservativos que autorizasse novos modelos, com selinho de garantia e tudo. Numa outra abordagem, um sujeito sonhava com um papa conivente com suas malandragens em relação ao SUS, ao Imposto de Renda... Enfim, de uma forma ou de outra, todos pareciam muito interessados num papa ?legal? que fosse a própria imagem e semelhança do contribuinte. Se a ascensão de Bento XVI preencheu essas expectativas, só o futuro dirá. Mas, além de Tiradentes, os egrégios esquecidos deste mês foram Albert Einstein e Teilhard de Chardin, uma vez que ambos morreram, coincidentemente, num mesmo abril, meio século atrás. Einstein, tido como o maior cientista do século XX, é figura emblemática na guerra e na paz. Vítima de ?coma histórico?, o jesuíta Teilhard de Chardin é um ilustre desconhecido para a maioria. Nem por isso deve ser descartado. Paleontólogo, filósofo e humanista apaixonado pelas teorias evolucionistas de Darwin, Chardin foi, antes de tudo, um pensador católico. Tentando conciliar ciência e fé, suas extraordinárias contribuições foram torpedeadas pela intolerância da Igreja, que não achou a menor graça num religioso opondo-se à concepção criacionista do universo, aplicando um xeque-mate nos relatos contidos em Gênesis. (*) É médico e professor da Ufal