Opinião
McPapa
| Luciano Pires * Talvez tenha sido em 62 ou 63. Eu devia ter uns seis anos e estava jogando bola no parquinho infantil, ao lado da Igreja Santa Terezinha, em Bauru. Repentinamente, o sino da igreja começou a tocar e a professora juntou a garotada no meio da quadra e comunicou que o papa havia morrido. Era João XXIII. Eu era jovem demais para entender. Assumiu Paulo VI, que permaneceu até os anos 80. Quando morreu, a mídia já tinha um papel importante na divulgação do processo de escolha de seu sucessor, João Paulo I. Lembro-me da capa do Jornal da Tarde, com a foto de João Paulo I sob a manchete. ?O papa que ri?. João Paulo I era mesmo sorridente, uma simpatia. Ficou papa por um mês e morreu. Veio João Paulo II, apresentado como um papa diferente, atlético, que esquiava, conduzindo a igreja por alguns dos períodos mais conturbados da história. Certos dogmas foram mais fortes que ele, que perdeu muito de sua energia após o atentado e talvez não tenha conseguido reformar a igreja tão profundamente quando desejava. Sua morte encerra definitivamente o século 20. A mídia superou-se nos funerais e na escolha do novo papa. Nunca houve uma chaminé como a Sistina e ver milhares de pessoas horas e horas em fila e lágrimas apenas demonstra a força da fé. Mas tenho umas dúvidas. Quantos estavam no Vaticano menos pelo papa e mais por poder um dia dizer ?eu estava lá?? E aquelas cenas de final de Copa do Mundo, com as pessoas se abraçando e gritando ao anúncio do nome do novo papa? Os muçulmanos devem ter reagido àquelas imagens da mesma forma que nós quando vemos os milhões de fiéis em Meca. Ou a turba em lágrimas e convulsões carregando a foto do Aiatolá morto. Será que não é tudo a mesma coisa? Claro que sim. Em graus diferentes de fanatismo talvez. Mas não é essa reflexão que quero sugerir aqui. O grande desafio do novo papa será conciliar moral, política e exposição na mídia. Ele já é um produto, ?vendido? pela mídia da mesma forma que um Big Mac. Da mesma forma que os terroristas islâmicos. Ou o tsunami. A biografia e as feições de Bento XVI não parecem ser as de um profissional acostumado com a mídia, transigente e carismáticoio. Temo que num mundo que precisa urgentemente reaprender a lidar com o intangível, com a imaginação, com a sensibilidade, um papa focado no comando e apegado a velhos dogmas seja um retrocesso. Mas vamos dar tempo ao homem. Talvez a esperança vença o medo. Êpa! Onde é que eu já ouvi isso mesmo? (*) é jornalista, escritor e cartunista