loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 06/08/2026 | Ano | Nº 6283
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

Fortaleza

Ouvir
Compartilhar

Eduardo Bomfim * Sou nordestino, com muita honra, mas jamais um cidadão desprovido da consciência de como se processou a civilização em nossos trópicos, onde primeiro fecundou-se o conteúdo da brasilidade. Recordo-me da frase de Gilberto Freyre - uma formação antropológica tão deturpada, cheia de mazelas profundas, escravocrata, doentia mesma. Porém, foi desta mesma civilização que surgiu aquilo que há de melhor na constituição da nação. E, como ele próprio afirmou, o que nos faz pensar nas ostras que dão pérolas. O Brasil agigantou-se, industrializou-se, apesar de continuar enfermo socialmente e em sua soberania econômica. No entanto, por onde bato os pés, com as mãos nos bolsos e a cabeça a divagar sobre a paisagem humana que passa a minha frente, são principalmente os nordestinos, ou seus descendentes, que mais se sobressaem na gentileza, na solidariedade, humildade. Há nordestinos em todas as profissões e qualificações. No entanto, a grande maioria é constituída de garçons, balconistas, pedreiros, cozinheiros, etc. Mas o traço principal é uma disfarçada humildade, porque mesclada com contido orgulho. Perguntem a qualquer um deles de onde vieram ou os seus pais. Enchem o peito, sorriem um sorriso largo e afirmam: Maranhão, Paraíba, Alagoas, Ceará velho de guerra, Bahia, Sergipe, Pernambuco, etc. Aliás, diga-se de passagem, é fato comprovado que existe cearense dono de feijoada famosa em Paris, proprietário de loja especializada de produtos em geral em Nova Iorque, dono de frigorífico no Alasca, comerciante em Pequim, taxista em Tóquio, mascate em Bruxelas e por aí vai. A maior virtude do nordestino nessas plagas, algumas tão longínquas do seu hábitat e meio ambiente hostil ao que estava acostumado, é especialmente a cordialidade, o sentido cultural da solidariedade. Ou como declarou um motorista de táxi, há trinta e sete anos, em Brasília: - ?doutor, eu conheço um conterrâneo lá do Nordeste pelo seu coração amoroso.? Sinceramente, talvez um sulista mediano não compreenda de imediato o sentido exato desta frase. Pode até pensar que todo ?nortista?, como dizem eles, vive literalmente, diariamente, apaixonado por alguém. Mas o que eu desejava dizer é que, ao contrário do que escreveu T.S. Eliot, sobre os seus conterrâneos do Hemisfério Norte, nós não somos os homens ocos, empalhados, aprisionados no cotidiano, no presente contínuo. A cultura brasileira é da reinvenção, da reconstrução, do atalho, da criatividade e da esperança. (*) É secretário-executivo do Ministério da Articulação Política

Relacionadas