Opinião
O milagre do Mutange
RONALD MENDONÇA * Ainda sofrendo os efeitos da devastação da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha, em 1954, era uma sombra da potência que havia assustado o mundo 15 anos antes. Desmoralizada, com a auto-estima no chão, a dantes orgulhosa pátria prussiana não acreditava que pudesse alcançar qualquer vitória expressiva, muito menos conseguir levar o caneco da Copa do Mundo - naquela época Taça Jules Rimet - para casa. Na realidade, o filme O Milagre de Berna, exibido essa semana no Shoping Cidade, é um desfile de relações afetivas contraditórias que, sem pieguices, usa a magia do futebol como uma poderosa vertente sublimadora. Embora expondo a penúria da nação, a narrativa gira em torno da família Lubanski, particularmente do garoto Matthias, apaixonado por futebol, que tem na figura de um jogador o substituto do pai desconhecido. Richard Lubanski, o pai, encontra-se nos presídios russos há onze anos e seu retorno é duvidoso. Finalmente libertado, a difícil reintegração familiar de Richard é marcada por confrontos com seus três filhos, até então criados apenas pela mãe. Os tempos eram outros e a rígida disciplina que o ex-soldado queria imprimir sofre contestações, ameaçando implodir a família. Paralelamente, a Alemanha (ela própria dividida em Oriental e Ocidental) estava envolvida na disputa da Copa do mundo na vizinha Suíça. No desenrolar do torneio, surpreendentemente para muitos, a equipe alemã vai se credenciando como possível finalista. O problema é a Hungria, que naquele ano formaria uma das melhores seleções de todos os tempos. No fim de tudo ocorre o ?milagre? e a Alemanha é campeã virando um jogo, contra a favorita Hungria. Além da euforia que tomou conta dos alemães, que finalmente sairiam vitoriosos de alguma disputa sem ser pelas armas, o grande milagre de Berna foi a reconciliação de Matthias com o pai. É claro que não houve essa intenção específica, mas O Milagre de Berna tem também tudo a ver com o povo brasileiro. Apesar dos achaques de sempre, fomos bicampeões em 58 e 62. Mas a copa de 70 no México encontraria o país mergulhado num dos períodos mais violentos da ditadura militar. Não sei se a conquista naquele ano serviu para abrandar os ânimos, mas, segundo relatos, os torturadores davam uma aliviada nos ?interrogatórios? enquanto durassem as partidas. Aproveito para deixar registrado que um dia gostarei de fazer comentários sobre o resgate da auto-estima dos azulinos vendo o querido CSA voltar a brilhar. O título do artigo já está na ponta da língua: ?O Milagre do Mutange?. (*) É médico.