Opinião
Exemplo raro
Marcos Davi Melo * Enquanto a caótica situação das UTIs neonatais públicas era motivo de manchetes na mídia nacional, os mesmos recursos públicos que faltavam para que se atendesse melhor a comunidade, sobravam abusivamente a pouco mais de 100 quilômetros daqui. Uma semana antes de mais esta crise na saúde pública em Alagoas estourar, na reunião do Conselho Estadual de Saúde surgia a denúncia de que o hospital estatal de Santana do Ipanema, uma encorpada unidade com disponibilidade de mais de 100 leitos, cujas obras custaram vultosos recursos públicos e terminaram já há bastante tempo, dificilmente vai funcionar. A Secretaria de Segurança Pública entregava mais de 100 viaturas para a polícia, enquanto ao mesmo tempo, mais de 30 outras viaturas de porte, com pouco uso (estes seminovos que as revendedoras mostram brilhando e vendem para muitos anos mais de uso) apodreciam por falta de manutenção adequada. Neste mesmo cenário de nonsense, a Santa Casa de Misericórdia de Maceió, uma entidade filantrópica de 154 anos, apresentava as suas contas - já devidamente auditadas - do ano de 2004. Entre outras coisas, mostrava que para cada 100 reais gastos com um paciente internado do Sistema Único de Saúde (SUS), recebia apenas 40 reais e mesmo assim avançava como uma das referências médica e administrativa da região. O megaempresário Jorge Gerdau, lá no Rio Grande do Sul, em entrevista na Veja, esclarecia que a Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre atendia com qualidade superior e por um preço cinco vezes menor do que o do maior hospital público da cidade de Porto Alegre, a mesma quantidade de pacientes do SUS. Em São Paulo, o governo acelerava o repasse dos ineficientes hospitais públicos para a rede filantrópica e injetava subsídios nestas entidades, em um processo muito bem recebido pelo usuário, cansado de buscar assistência médica digna. Os exemplos de economia de recursos públicos, sem prejuízo da qualidade do serviço para a comunidade, pelo contrário, com ganho, economia e enxugamento da máquina pública; possiblitando a redução dos juros e auxiliando o desenvolvimento do País, estão aí para serem vistos por quem quiser. Em Alagoas, depois de uma longa marcha contra a história, somente agora, com esta crise das UTIs neonatais, se descobriu o óbvio: os leitos para UTIs neonatais podem ser ofertados pelas entidades filantrópicas por um custo mais baixo que o estatal e certamente -- sem prejuízo da qualidade. Esperemos que o exemplo de bom senso, raro entre nós, possa evoluir. (*) É médico.