Opinião
Sonho e saudade
GILBERTO DE MACEDO * Humanamente vive-se num tempo tríplice. Ontem, hoje, amanhã, coexistem, simbolicamente, na vivência de cada pessoa. É da historicidade do ser humano e de sua transcendentalização. Sinal da liberdade subjetiva, de cada um poder olhar para trás, e para a frente. Com os olhos físicos olhar o presente, olhar com a memória para o passado, e olhar com a imaginação para o futuro. É assim que o homem transcende os seus limites corporais. A saudade é o passado. O sonho é o futuro. A saudade é a nostalgia no coração. O sonho é a esperança no pensamento. A saudade é revivescência; é o passado intelectualizado no presente, através da imagem na recordação. O sonho é a projeção no futuro através da idéia imaginada no presente. Memória de ontem e imagem de amanhã atualizadas num mesmo quadro mental. Pois viver é uma continuidade no desenrolar do tempo, sem perder a identidade do presente, então, é que, de quando em vez, estamos a reconhecer a experiência de ontem, e a criar a de amanhã, situada na esfera da subjetividade. Mas, por outro lado, não sendo passivos, mas seres ativos, é que nos voltamos para o futuro, para alcançar determinada meta. Andar para a frente é portanto, imperativo humano. Vamos, portanto, imaginar o futuro, construindo belos sonhos. Razão de John Lennon certeiramente ter dito: ?Faça seu próprio sonho?. Viver e sonhar consciente. E a saudade é a vida que não se apaga, embora não sejamos prisioneiros dos acontecimentos de então. Temos a nossa liberdade que nos permiter discernir os valores das experiências vividas, conservando os momentos de felicidade e renunciando, por racionalização, aos desagradáveis. É o que se vê descrito no poema de Bastos Tigre: ?Saudade, palavra doce que traduz amargor, saudade é como se fosse espinho cheirando a flor?. Não uma dependência sentimental, apenas simples memorização impessoal. Isso, a não ser em casos especiais de vinculação a um ente querido desaparecido que não cabe indiferença, ou como mecanismo para compensar frustrações do presente. E os sonhos acordados mais profundamente têm a ver com a vida humana. Diz respeito à realização dos ideais e anseios de felicidade, nessa busca ansiosa do destino, como ensina o padre Antonio Vieira, de que ?...os sonhos são a imagem da vida. Cada um sonha como vive... retratam a vida e a alma de cada um com as cores da sua ação, dos seus propósitos, dos seus desejos?. Sonhemos, pois, para viver melhor. É de nossa liberdade, acrescer agradavelmente na intimidade do ser. (*) É médico.