Opinião
Bombeiros incendi�rios
RONALD MENDONÇA * Baseado em pesquisa na população, o insuspeito IBGE publicou, há 1 ou 2 anos, resultado que colocava o Corpo de Bombeiros Militar como uma das instituições de maior credibilidade no País. A Igreja Católica também não esteve mal nesse ranking, assumindo o 2º lugar. Levando em conta os tempos bicudos, médicos até que ficaram razoáveis numa 4ª posição. Infelizmente para nós outros, os políticos e afins foram miseravelmente avaliados, o que não chegou a ser exatamente uma novidade. Falando de bombeiros incendiários, logo vem a lembrança de Luma de Oliveira, deusa pagã dos carnavais cariocas. Louvada pelos adereços que mais realçavam que escondiam seus explosivos atributos, a madrinha de bateria de escola de samba veria o seu casamento detonar depois de suposto affaire com um certo Albucassys, capitão do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro. Na ocasião, o bombeiro foi acusado de romper código de honra, ao revelar insinuantes mensagens íntimas, consideradas inadequadas ao estado civil da bela missivista. Em Alagoas, evidentemente sem a repercussão alcançada pelo seu colega carioca, o capitão Buriti também botou a boca no trombone, espalhando aos 4 cantos o que mais ou menos já se sabia: o nosso Corpo de Bombeiros está velho, doente e desamparado. Ao contrário da tagarelice de Albucassys, que serviu apenas para alimentar as colunas de fofoca, a ?indisciplina? de Buriti (que prefiro chamar de coragem cívica) prestou importante serviço aos alagoanos, independentemente da saia-justa dos superiores hierárquicos, ao mostrar as dificuldades que a corporação, cuja missão é salvar vidas, enfrenta. Mais recentemente, no Hemisfério Norte, noticiou-se inesperado início de recuperação do bombeiro Donald Herbert.Com efeito, há 10 anos sem pronunciar uma palavra depois de sofrer dano cerebral por falta de oxigênio, o americano rompe o silêncio e fala durante 14 horas seguidas. Ainda sem uma boa explicação científica, a história ganha contornos especiais pelo fato de ocorrer poucos semanas depois de a Justiça americana ter autorizado a retirada dos tubos que alimentavam a jovem Terri Schiavo (também com seqüelas de anóxia cerebral), medida que resultaria em sua morte. Assim, involuntariamente, o bombeiro Herbert incendeia as discussões sobre a eutanásia, pondo em xeque a crença quase religiosa da irreversibilidade dos estados vegetativos crônicos. Também renova as esperanças de milhares de famílias que têm parentes em condições semelhantes. (*) É médico e professor da Universidade Federal de Alagoas