Opinião
Um pa�s de corruptos
RONALD MENDONÇA * De autoria de João Ubaldo Ribeiro, a assertiva ?somos um país corrupto? é destaque nas ?páginas amarelas? da revista Veja desta semana, por sinal uma das entrevistas mais realistas e verdadeiras desses últimos tempos, onde o que costumam prevalecer são os sofismas, as tapeações verbais. Membro da Academia Brasileira de Letras, Ubaldo Ribeiro faz parte de uma intelectualidade lúcida e livre, que não está nem aí de parecer retrógrada quando tem que tecer comentários pouco amenos sobre o presidente Lula (a quem chama de ignorante e despreparado), seus auxiliares e os rumos do governo. Em relação à sociedade como um todo, o imortal é definitivo: ?Vivemos num ambiente de lassitude moral que se estende a todas as camadas. Dizer que as elites são corruptas, mas o povo é honesto é conversa fiada. Somos um povo de comportamento desonesto de maneira geral?. Abro um parêntesis para dizer ao leitor que, numa época não muito distante, prestigiados romancistas, através dos seus personagens, tentaram passar a mensagem caricatural de que os pobres eram solidários e honestos, enquanto ricos e pequenos burgueses não passavam de sórdidos exploradores preocupados apenas com o próprio umbigo, além de portadores de inelutáveis inclinações à degenerescência moral. Pessoalmente, tenho estocados motivos de sobra para não ter ilusões: pobres e endinheirados são absolutamente iguais nas patifarias, tudo se resumindo numa questão de oportunidade. Quando se trata de acumular bens, a diferença é que os ricos não se conformam com caqueiradas. Aliás, ninguém precisa ter PhD em economia ou sociologia para checar o que até as formigas de açúcar cansaram de saber: maior patrocinador do status quo dos conhecidos e temidos poderosos da terrinha, o dinheiro público também está visceralmente relacionado à mobilidade social da província. Com efeito, virou rotina políticos e apaniguados transformarem-se, do dia pra noite, de notórios pés-rapados em gordos, prósperos e ?audaciosos? empresários, graças, é claro, a facilidades fiscais, intermediações e desvios de verbas, rifagem dos mandatos e sinecuras diversas. É evidente que, ao conceder a aludida entrevista, João Ubaldo Ribeiro nem de longe desconfiava do tsunami que passaria por Alagoas, quando, suspeitos de integrar um esquema diabólico de assalto aos cofres públicos, dezenas de políticos e empresários foram varridos para as celas da Polícia Federal. Se o escritor estiver certo, ainda tem peixe de todo tamanho para ser fisgado. (*) É médico e professor da Universida- de Federal de Alagoas.