Opinião
Na pol�tica e no amor
Luciano Siqueira * Que os mais céticos permitam a analogia: a política é como o amor. Sob muitos aspectos. A começar pela mescla de paixão e tolerância, ingredientes aparentemente contraditórios porém complementares e indispensáveis. A paixão por uma causa ou mesmo por um objetivo de curto ou médio prazo, ou ainda por interesses, digamos, questionáveis. É preciso estar apaixonado para dedicar-se à arte e ao ofício da política com desprendimento e até com sacrifício parcial da vida pessoal. Isso vale para todas as correntes políticas, para todas as causas ? justas ou não ? e para todos os indivíduos. Mas o que se pretende nem sempre é possível, ou fácil de alcançar. Depende de outros atores envolvidos na cena, remete a uma hábil e equilibrada abordagem de interesses contraditórios e de discrepâncias conceituais. Ninguém faz política sozinho, nem alcança grandes êxitos sem a conjugação de forças numa mesma direção. Daí a necessidade da tolerância, irmã gêmea da paciência e da persistência na busca de determinado objetivo, que implica em respeitar diferenças e tratar a todos como iguais a despeito da força relativa de cada um. Em certas circunstâncias, é preciso ?ficar rouco de tanto ouvir?, aconselhava Tancredo Neves, mestre da articulação política. Ouça e não ache nada estranho ? modestamente, com alguma estrada percorrida cá na província, acrescentamos nós. No ponto de partida, via de regra, predominam as diferenças e a explicitação de desejos contraditórios, porém legítimos. O ponto de chegada requer convergência de propósitos em torno de uma plataforma comum que conduza ao somatório das energias, e não à dispersão. É assim que as coisas acontecem, vistas sob o ângulo de quem pretende, sinceramente, unir forças em torno de objetivos nobres. Impossível ir adiante sem forjar uma verdadeira vontade nacional na direção do desenvolvimento em bases democráticas e soberanas ? a causa mais justa da atualidade, pelo qual devemos estar apaixonados; e a mais difícil, em favor da qual precisamos juntar forças, sem preconceitos nem supervalorização de interesses grupistas subalternos. A analogia vale também para os acontecimentos em terras pernambucanas. No horizonte, a possibilidade real da conquista do governo do Estado e de fortes bancadas parlamentares no pleito de 2006. A coligação que apóia o governador Jarbas, dividida e sem um nome de consenso. Na oposição, infelizmente, ao invés do diálogo esclarecedor e convergente, a desconfiança e a troca de farpas pelos jornais. Seguindo a analogia, a raiva estéril se superpondo à paixão e ao bom senso. Assim, não há amor que se sustente, nem ação política que chegue a bom termo. (*) É vice-prefeito do Recife.