Opinião
O trigo e a alimenta��o dos brasileiros
Samuel Hosken * Nos últimos dez anos o consumo mundial de trigo cresceu 11,6%, enquanto a população global aumentou em 13,4%. O mesmo ocorre entre nós, com um crescimento vegetativo ou mesmo inferior ao da população. Será que vivemos uma estagnação no setor? Parece que sim, pois as estimativas do órgão americano especializado em agricultura (USDA) são de aumento similar (11,4%) nos próximos dez anos. Existem várias razões que explicam por que o consumo de farinha de trigo e de seus derivados vem crescendo pouco. Não existem produtos alimentícios que concorram com os derivados do trigo em preço e qualidade, mas há muitas pessoas que evitam consumi-los, pois se criou o mito de que pão e massas engordam e por isso não fazem bem à saúde. Estudos recentes mostram que, pelo contrário, os italianos são um dos povos mais saudáveis do mundo, pela sua dieta, que inclui larga proporção de derivados de trigo. Outro importante motivo dessa baixa expansão é, provavelmente, de responsabilidade de nosso setor, um pouco conservador. Hoje o consumidor quer produtos práticos e saudáveis (mais fibras, menos calorias), com embalagens modernas e fracionadas, que ele dificilmente encontra. Farinhas de trigo, pães, massas e biscoitos têm como mercado-alvo principal as pessoas saudáveis, mas são usados também em algumas fórmulas destinadas aos doentes, pela facilidade de absorção. O que tem faltado para ampliar o consumo é provavelmente uma ação mais pró-ativa do setor, mostrando que o trigo foi o alimento das mais importantes civilizações, porque tem uma combinação perfeita de carboidratos e proteínas essenciais. Outro aspecto importante é a existência de vários tipos de trigo, cada um deles adequado para uma diferente categoria de produto, e essa diferenciação não tem ocorrido na compra, particularmente quando ela é feita de nosso principal fornecedor, a Argentina. É preciso que tanto na Argentina, como no Brasil, se adote a política de segregar os diversos tipos de trigo para atender da forma ideal às diferentes aplicações. Por essas razões, a indústria de trigo no Brasil e os fornecedores da Argentina vêm buscando fortalecer sua parceria de longo prazo, para que cada comprador receba as variedades mais indicadas para uso no produto final. Com isso vamos poder oferecer ao consumidor pães, biscoitos e massas mais variados e com as características ideais para cada tipo de exigência alimentar e de gosto, ampliando nosso mercado. E, além disso, estaremos reforçando os laços do Mercosul, com nossos irmãos argentinos. (*) É presidente da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo).