Opinião
Doloroso autoflagelo
RONALD MENDONÇA * Vertente de uma sociedade livre, a imprensa vem consolidando sua vocação de indispensável coadjutora do sonho democrático. Nesse aspecto, hoje, todos os grandes jornais têm aberto amplos espaços ao público, permitindo que o cidadão comum possa, sem intermediários, expor suas idéias, aplaudindo, reclamando ou condenando. Não é à toa que ?cartas dos leitores? é uma das secções mais lidas de revistas e jornais. Falando de leitor interativo e vigilante, não se pode deixar de registrar as ?cartas à redação? do doutor Ib Gatto Falcão. Realmente, com a autoridade de profundo conhecedor das grandezas e mazelas da província, doutor Ib, por meios de seus oportunos comentários, aos 90 anos continua a prestar inestimáveis serviços à comunidade. Oxalá seja ouvido pelas autoridades! Mas como nem só de grande imprensa vive o homem, vale lembrar o esforço de alguns conterrâneos em criar instrumentos para se palpar a pulsação da sociedade. Refiro-me ao PoisÉ, inteligente e apimentado jornal eletrônico diário (com quase duas mil edições e milhares de leitores e colaboradores espalhados no mundo inteiro) editado pelo inventivo arquiteto e poeta Pedro Cabral. O Espia, do famoso escritor e ?sábio himalaio? Carlito Lima, o Duque de Jaraguá, é a grande novidade eletrônica da cidade. Sua tiragem semanal já faz parte do trade intelectual, político e sexual, sendo aguardada com muita ansiedade pelos assinantes. Qualquer que seja o veículo, é essencial que a sociedade mostre a sua cara de indignação diante de fatos estarrecedores, como os que explodiram recentemente aqui em Alagoas. É claro que muitos dos ilustres protagonistas envolvidos, além de influentes, detêm expressivo círculo de amizade, detalhe que torna o comentário crítico um doloroso ato de autoflagelo. Também fazem parte do jogo democrático, além de passeatas, concentrações pacíficas na frente de órgãos públicos para demonstrar o repúdio às alegadas patifarias. Lamentável é a manipulação político-partidária dessas justas manifestações, mesmo porque nessa quadra não há nenhuma donzela. Por outro lado, é esquisito o silêncio dos órgãos e poderes que teoricamente deveriam estar atentos a essas malandragens. Na melhor das hipóteses, fica a dúvida sobre a real utilidade de determinadas instâncias, regiamente pagas - diga-se de passagem - para apurar contas de administrações municipais e estaduais. Um dos exemplos mais incríveis de injustificável incúria é a aprovação sistemática das contas da Prefeitura de São Paulo nas gestões Paulo Maluf. (*) É médico e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).