Opinião
Desenvolvimento. E o marciano que ri
A. Sérgio Barroso * O economista Dani Rodrik - nunca gauche na vida -, em Growth Strategies (2004), abusou da inventividade comparando o desenvolvimento em 40 países e regiões: solicita-se a um marciano inteligente expor o desempenho econômico dos países em desenvolvimento. A partir do resultado esperado, com recomendações do tipo Consenso de Washington, ou do tipo que usualmente fazem as agências multilaterais, haveria sucesso em identificar quais os países ou regiões seguiram (ou não) a agenda padrão global? Para Rodrik, estudioso das apelidadas ?economias emergentes?, como explicar, por lado, o desenvolvimento da Coréia do Sul e Taiwan, a forte expansão sustentada na China e na Índia, precisamente países que não seguiram à risca o receituário; e por outro, o ?baixo dinamismo? da América Latina, região onde vários países promoveram de forma intensa, em poucos anos, a privatização, a liberalização e a desregulamentação, sabidamente políticas neoliberais que os países da Ásia não realizaram em 40 anos? Certamente o tal marciano não conseguiria decifrar o quebra-cabeças, mesmo se defensor de uma consistência entre alguns princípios econômicos subjacentes à agenda-padrão e o desempenho econômico observado. Pois, conforme Rodrik, os países de nova industrialização como Coréia do Sul e Taiwan, de crescimento médio de 4,4% do Produto Interno Bruto (PIB) per capita (1960-2000), adotaram modelos de crescimento com ?características bastante distintas? da agenda convencional. Comparando a relação modelo liberal standard X as políticas efetivamente aí implementadas, o marciano concluiria, sem ?piscar?, que esses países (e, antes deles, também o Japão) teriam ?pouca chance de desenvolvimento?. A China ? escreve Rodrick ? com seus 8% do PIB per capita entre 1980-2000, desnortearia o visitante. A Índia, cujo crescimento desde 1980 é significativo, leva uma agenda de reformas de ?pouca semelhança? com a receita do Consenso de Washington; o processo de desregulamentação econômica executa-se de forma ?bem gradual? (poucas privatizações, e abertura comercial iniciada apenas no final dos 90). Na América Latina e a África Subsaariana, deu-se ?o contrário das previsões teóricas convencionais?: crescemos a taxas muito baixas nos anos 90, após a retração na década chamada perdida (1980); e o atraso da África se aprofundou de forma dramática: 0,8% médio do PIB per capita de 1980 a 2000. Para uma tenebrosa gargalhada do marciano. (*) É médico e doutorando em Economia Social e do Trabalho.