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Incorre��es do “politicamente correto”

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Bernardo Joffily * Foi suspensa a cartilha do ?Politicamente Correto? elaborada pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos do governo federal. Mas a controvérsia inflamada por ela promete continuar. Mais ainda por ter sido deflagrada por uma carta do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro que é quase uma declaração de guerra. Arrisco-me no meio do tiroteio. Acho que o politicamente correto é politicamente incorreto. O ?politicamente correto? tem sido um dos bordões mais controvertidos dos nossos tempos, e também dos mais resistentes. Popularizada nos anos 70 e 80 pela esquerda norte-americana, a expressão foi essencialmente cooptada pelos conservadores nos anos 90, quando passou a viver sua idade de ouro no país do ?destino manifesto?. Essa ambivalência de origem atravessa o debate sobre o conceito, e por extensão sobre a cartilha. No Brasil, o culto do politicamente correto foi importado sobretudo por dois condutos. De um lado, a mídia grande, acostumada a reproduzir sem pensar o que quer que venha do Grande Irmão do Norte. De outro, as ONGs, via contatos com similares anglo-saxãs e em especial via relação com agências financiadoras idem. Voltemos à cartilha. Mistura-se no glossário que se pretende enquadrar verbetes de ordens bem diversas. Alguns são frases completas que exprimem de fato um pensamento preconceituoso: ?Mulher no volante, perigo constante? ou ?preto de alma branca?, entre outros. No extremo oposto, outras contra-indicações da cartilha não são levadas a sério nem pelos mais fervorosos defensores do politicamente correto. É o caso de ?Barbeiro? (que o texto considera ?ofensivo ao profissional especializado em cortar cabelo e aparar a barba?). Ou de ?Palhaço? (?O profissional que vive de fazer as pessoas rirem pode se ofender quando alguém chama de palhaço uma terceira pessoa a quem se atribui pouca seriedade?). Há ainda verbetes que a cartilha não pretende propriamente condenar, mas, aparentemente, disciplinar. Por exemplo, ?Comunista? aparece seguido da afirmação de que ?contra eles (sic) foram inventadas as piores calúnias e insultos, para justificar campanhas de perseguição que resultaram em assassinatos em massa, de caráter genocida, por exemplo, durante o regime nazista na Alemanha?. Sobre ?Político?, diz o texto que ?frases como ?todo político é corrupto? não passam de preconceito de gente mal informada?. Mas então é de se perguntar por que incluir ?comunista? e não, por exemplo, ?petista?, ou ?tucano?, já que são correntes políticas que igualmente despertam forte rejeição. Resumindo, em boa hora, essa cartilha incorreta foi jogada no lixo. (*) É jornalista e artista gráfico ([email protected])

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