Opinião
Serenidade e esp�rito p�blico
Luciano Siqueira * Lançamento do Livro dos Homens (Cosac Naify, 2005), coletânea de contos de Ronaldo Correia de Brito, médico e escritor, autor do primoroso Faca, da mesma editora. Passagem ligeira, pois nossa agenda não permitia permanecer mais tempo ? uma pena ? na companhia de tanta gente boa reunida na Livraria Cultura, no Passo Alfândega. Porém o diálogo era irrecusável. ?Para governar, vocês têm que ter muita paciência. Eu não teria?. Como assim? ?Todo mundo quer ver resultados imediatos e nem sempre isso é possível, não é mesmo?? Sem dúvida. A obra de governo leva tempo e está sujeita a muitos fatores, que ajudam ou atrapalham. ?Falta dinheiro pra tudo?. Não é só isso. Às vezes os recursos existem, mas os programas não estão bem formatados. ?Falta gente competente?? Em alguns casos sim, em outros não. A competência é uma mescla de conhecimento técnico, sensibilidade política e capacidade de ouvir o povo. ?E espírito prático, não?? Sim, tem que ter muito espírito prático, iniciativa e criatividade para contornar dificuldades. ?E serenidade para encarar as cobranças da opinião pública?. Muita serenidade, pois a crítica e a cobrança são necessárias, mas nem sempre são bem situadas. As pessoas não compreendem o processo de construção das políticas públicas, desejam ver os problemas resolvidos ontem. ?Se possível com números convincentes, as tais estatísticas?. Claro! Mas aí há um equívoco. Nem sempre se pode quantificar resultados apenas no curto prazo. Há programas de natureza estruturante, que só vão produzir suas conseqüências lá adiante. ?Por exemplo...?. Prevenção da violência urbana é um exemplo. Você planta hoje para colher daqui a alguns anos. ?E já vem outra eleição por aí. O eleitor não gosta de esperar?. Gosta não, é imediatista. E a mídia reforça isso. Todos perguntam: e os resultados? ?E haja paciência?. Paciência, perseverança e espírito público, meu caro. Nosso dever é construir políticas e programas que tenham consistência e sustentabilidade, mesmo correndo o risco de incompreensões. Questão de tempo e de processo. ?Isso mesmo, daí eu dizer que não teria a paciência de vocês?. É o nosso ofício. ?Tudo bem. Mas me explique uma coisa: se tempo e processo são aspectos tão importantes na avaliação dos governos, por que a mídia os subestima tanto??. Aí o problema já não é nosso, é com os editores; só você escrevendo cartas a redações. (*) É vice-prefeito da cidade do Recife.