Opinião
Ler faz mal � sa�de
Agatângelo Vasconcelos * Li, faz algum tempo, algo neste sentido. Fiz anotações, guardei-as, agora escrevo sobre o tema, ampliando-o um pouco. Entende-se que ler, escrever e adquirir conhecimentos é prejudicial à saúde física e mental de qualquer pretensioso e desavisado que vá por este caminho. Pois não é o caso do desvairado e culto Dom Quixote de La Mancha em comparação com o bom e iletrado Sancho Pança, quando em suas justiceiras andanças por terras de Espanha? O primeiro, esquálido, inteligente, fidalgo e lunático, incansável leitor dos livros relativos à Cavalaria Andante. O segundo, gordo, bronco, simples e centrado. É bíblico, estaria escrito nos Atos dos Apóstolos: ?Muitos livros levam à loucura?. A zelosa Inquisição, como num passado mais recente o nazismo, o comunismo e tantos outros regimes ditatoriais igualmente cuidadosos, todos proibiram publicações, censuraram e queimaram livros em benefício da nossa alma e do nosso bem-estar social e econômico. Ao longo dos séculos, médicos, filósofos, religiosos, políticos e escritores de todas os matizes ideológicos, pressurosamente têm procurado alertar à descuidada humanidade quanto aos extremos malefícios trazidos pela leitura. Em sua Anatomia da Melancolia editada em 1621 (foi um best-seller várias vezes reeditada), Robert Burton, destacado escritor inglês, informa muito que os estudantes comumente apresentam graves distúrbios como ?...gota, catarro, reumatismo, problemas de vista, pedras, vertigens e outros males causados pelo sentar excessivo?. Sentar excessivo para mais estudar, esclarecemos. Este autor, mirando-se no seu próprio exemplo, acrescenta entristecido: ?O estudioso não é um homem feliz?. O Dr. Melville em seu Tratado de Hipocondria e Doenças Histéricas, publicado em 1730, explica didaticamente que ler aumenta a preocupação com o próprio corpo levando à hipocondria. Nada de muita leitura, parece ser a diretriz seguida em todos os níveis governamentais. Isto explica a indigência das nossas instituições culturais e educacionais, sejam municipais, estaduais ou federais. Os nossos líderes aparentam comungar do mesmo pensamento: ?Restrinjamos as verbas orçamentárias destinadas a estas áreas; mas se por um descuido, algo (que sempre é muito) for aprovado, conjuguemos o eficaz verbo da moda: contingenciemo-las! Ou não? ?A leitura, esse vício impune? (Valery Larband), fomenta a cultura. E sobre este apanágio da condição humana, assim, se expressou Hermann Goering, belicoso: ?Quando ouço alguém falar em cultura, saco do meu revólver!?. Já sobre propaganda são conhecidas as idéias de Goebbles, ministro da Propaganda de Hitler, seguidas ao pé da letra. E ainda há quem reclame. (*) É medico e escritor.