Opinião
Estrela cadente
RONALD MENDONÇA * Não houve nenhuma surpresa com a desagradável notícia de que chegamos aonde não podemos mais descer: somos, por méritos próprios, é bom que diga, o pior estado da União. Não, não se trata de crise de derrotismo, também não é coisa do PT de Paulão & Cia. A estrela radiosa está se apagando. Lembro que na minha infância disputávamos, deixando no chinelo, com o acanhado Sergipe. Dizia-se que, afora o ínvio Piauí, o vizinho estado era o que havia de mais atrasado no País. O tempo passou e ficamos na saudade de um período de efervescência que talvez tenha durado até os anos 70, se muito, quando até um banco de crédito chegou a ser criado. Depois, enquanto Alagoas priorizava a luta pelo domínio político de novas sesmarias para enriquecimento individual, os políticos e os empresários de Sergipe se organizaram e elevaram o nível de prosperidade do estado, decisão que certamente beneficiou a todos. Assim, começamos a perder essa guerrinha particular com o primo pobre, culminando com a transferência da Petrobrás. Atraídos pela febre desenvolvimentista da terra de Tobias Barreto, muitos jovens recém-formados nas bancas da Ufal transferiram-se para a casa do vizinho e hoje, vitoriosos, condoem-se da nossa indigência. Vale lembrar que nossos ilustres governantes e seus áulicos cansaram de abusar da saúde mental da população incutindo a paranóia de que éramos fracassados porque o governo federal nos perseguia, não gostava do povo alagoano, deixando de enviar recursos por pura pirraça. Nesse aspecto, a Operação Gabiru desmascarou completamente a farsa. Mas, de que vive hoje a Alagoas dos pobres ? Vive sobretudo de esmolas. É fato que a indústria da cana de açúcar oferece emprego a milhares de pessoas, garantindo a subsistência. Esses empregos, todos sabem, não fazem parte de nenhum plano pio, de caridade cristã. Antes, trata-se de uma inadiável necessidade dos patrões pelo simples fato de a indústria não funcionar sem essa mão de obra barata. E quem dá sustento a Alagoas ?rica?, afinal ? O que movimenta o próspero comércio de venda de automóveis cabines-dupla, por exemplo ? De onde vem a riqueza dessa gente que investe pesado na aquisição de imóveis em prédios na orla ou em condomínios de luxo ? Claro que há ainda os bons empregos em órgãos oficiais - onde o nepotismo é uma úlcera maligna - e outros cargos comissionados, cujas mordomias ajudam a manter alguma atividade econômica. Aqui e acolá, profissionais liberais - sobretudo advogados - conseguem descolar uma boa grana, com freqüência de forma honesta. O resto é esquema pesado. (*) É médico e professor da Ufal.