Opinião
O mar de lama
EDUARDO BOMFIM * Os da minha geração tinham entre quatro ou cinco anos, não podiam entender os acontecimentos políticos que envolveram a nação como um furacão. Permaneceu a História, seus ensinamentos e suas versões ao gosto do cliente. Refiro-me ao suicídio do presidente Getúlio Vargas e aos fatos que constituíram a tragédia. Forças poderosas e nada ocultas, para lembrar a justificativa da renúncia de Jânio Quadros, foram armando uma série de situações, que verdadeiras ou não, escondiam, camuflavam o objetivo essencial dos conspiradores. Ao instituir o monopólio estatal da prospecção e produção do petróleo, por intermédio da criação da Petrobras, introduzir uma série de leis que beneficiavam os trabalhadores, limitar a remessa escabrosa de lucros de empresas estrangeiras às suas matrizes de origem, fundar a Eletrobras e tantas outras medidas benéficas ao país, Getulio Vargas, em seu segundo governo, atraiu poderosos inimigos internos e principalmente externos. As iniciativas eram populares e atendiam aos interesses nacionais. O presidente buscava, segundo o contexto da época, alçar o Brasil, no cenário internacional, como um país economicamente soberano e dono do seu próprio nariz. Aqueles, alinhados aos grupos externos, e conservadores na política interna, sabiam que jamais poderiam se postar abertamente contra o progresso do país. Precisavam urdir um plano que destruíssem moralmente o presidente, o governo e suas principais figuras, explorando os pontos frágeis e obscuros da gestão. Era o ?mar de lama? que ?engolia a nação?. Conquistaram apoio sólido de grande parte da classe média e das forças armadas Cercado, em desfavorável correlação de forças, na iminência de um golpe de Estado ou da renúncia, Getúlio, em uma trágica, mas fria manobra política, escreve uma carta-testamento denunciando a verdadeira natureza dos fatos e mete uma bala no peito. A esmagadora maioria do povo brasileiro rebela-se e o golpe é abortado pelas indignadas multidões nas ruas. Mas a fórmula mostrou-se eficaz. Assim, foi usada contra Juscelino, Jango etc. E continua atual. O governo Lula possui dimensão histórica própria e distinta. Move-se entre um projeto nacional-desenvolvimentista e orientação econômica ortodoxa. Aglutina a esquerda e setores patriotas, uma política externa ousada e independente. A sua débâcle implicaria na vitória dos mesmos do ?mar de lama?, dos notórios interesses estrangeiros em relação ao país e do conservadorismo interno. (*) É advogado.