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Sob fogo cruzado

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Luciano Siqueira * Nada é simples quando se governa. Sobretudo num país como o nosso, rico em potencialidades, mas envolto num cipoal de contradições sociais e econômicas que, nos seus reflexos políticos, têm o epicentro em Brasília. Mais ainda no caso do presidente Lula, eleito com votação consagradora, porém sob uma correlação de forças adversas, definida através da eleição de governadores, senadores e deputados federais, majoritariamente pertencentes a legendas que não apoiaram o presidente. Some-se a tudo isso a dimensão do principal desafio do governo: colocar o Brasil na trilha do desenvolvimento sustentável, em bases democráticas e soberanas. ?Daqui até o ponto de chegada o presidente tem muitos obstáculos a vencer?, comentava um amigo semanas atrás. Mais grave, respondíamos: sequer o ponto de partida está devidamente equacionado, na transição do modelo de desenvolvimento herdado para o novo projeto. ?Qual novo projeto?? Eis aí um imbróglio ainda não resolvido. O governo contém em seu âmago uma disputa renhida entre duas alternativas. Uma se expressa através da política externa independente e soberana, que diversifica mercados, reforça o Mercosul e busca a integração do subcontinente sul-americano; recoloca o BNDES como banco de fomento da produção e formata uma política industrial avançada. O outro, ainda predominante, ressalta na manutenção da política macroeconômica conservadora, incapaz de ampliar os limites e de acelerar o ritmo do crescimento. Essa disputa interna impede que o governo dê nitidez ao projeto e, por conseguinte, recolha da sociedade apoios consistentes. Ao contrário, torna-se vulnerável aos ataques da direita. Acresce que não há unidade no chamado núcleo duro (petista) que auxilia diretamente o presidente. Uma espécie de casa sem pão (sem projeto definido) onde todos brigam e ninguém tem razão. Para completar o rol de dificuldades, a relação do governo com os partidos aliados e com a base parlamentar, construída a duras penas, jamais se deu em termos adequados. Tanto que comporta lances como o protagonizado pelo deputado Roberto Jefferson, evidente tentativa de jogar lama no ventilador para escapar da condição de alvo em investigação sobre supostos atos de corrupção. Sob fogo cruzado, o presidente Lula tem como sair do tiroteio: definindo com clareza o projeto de governo, ajustando a unidade e a coesão interna de sua equipe e estabelecendo relações com a sua base de sustentação política sob condições que agreguem apoios conscientes e sólidos. (*) vice-prefeito de Recife.

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