Opinião
A CPI e sua apar�ncia
Bernardo Joffily * Um pouco mais da metade dos cidadãos brasileiros (51,2%) pelo menos já ouviu falar das denúncias de corrupção na Empresa de Correios; e, destes, 86% desejam uma CPI sobre o tema. Os dados são da última pesquisa CNT-Sensus, com base em entrevistas coletadas entre 24 e 27 de junho. E são números que coincidem a grosso modo com a percepção de quem presta atenção no que o povo anda dizendo. A CPI é uma bandeira popular. O que não faz dela, necessariamente, uma bandeira justa. É popular porque o homem da rua sente repugnância pelas armações e esquemas que fazem da coisa pública uma espécie de prolongamento dos interesses e apetites privados da elite governante. E, até aí, o homem da rua está coberto de razão. Mas não é justa porque os móveis da CPI solicitada pela oposição não são os mesmos que estão na cabeça do homem da rua. Entre uns e outros existe a distância que costuma separar a aparência da essência. A julgar pelas aparências, ninguém diria que a água é composta por dois gases altamente inflamáveis - o hidrogênio e o oxigênio. Ninguém diria nem sequer que a Terra é redonda e está em permanente movimento, numa velocidade que nos trópicos ultrapassa 1.600 quilômetros por hora. Na aparência, para quem abre um jornal ou liga a tevê, lá está o deputado Alberto Goldman (PSDB-SP) a denunciar o emprego de R$ 400 milhões na operação abafa-CPI. E o senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) a desafiar o governo Lula, para que ?não impeça o Congresso Nacional de fazer as quadrilhas do país dançarem conforme a lei manda?. No PFL, as aparências ficam ainda mais mimetizadas, pois a legenda escalou para a sua tropa de choque nesta batalha dois deputados na casa dos 25 anos de idade, Rodrigo Maia e ACM Neto, a atestar o rejuvenecimento da sigla de Jorge Bornhausen... até que se descobre que um é filho do prefeito Cesar Maia e o outro neto do senador Antonio Carlos Magalhães. Mas cavouquemos um pouco essa superfície aparente, sob a forma de uma pergunta ao homem da rua, aquele mesmo que diz querer a CPI. Será que ele acredita que essa gente esteja de fato interessada em combater a corrupção? A própria pesquisa CNT-Sensus dá indicações sobre qual seria a resposta. Ali se indaga se a corrupção diminuiu ou aumentou do governo Fernando Henrique para o governo Lula. Para 31,4% dos entrevistados, ela diminuiu com Lula, contra 26,7% que acham que ela aumentou (34,4% opinaram que permaneceu na mesma). Terão eles se convertido mesmo em vestais da probidade, como se pode deduzir de seus discursos? (*) É jornalista.