Opinião
Cora��o ingrato
MARCO DAVI MELO * Encalacrado em seu amplo apartamento no último andar de um prédio em Brasília, o deputado federal Roberto Jefferson, foi flagrado apresentando insuspeitas virtudes canoras, entoando a ária ?Core ?ngrato? (Coração ingrato) de Salvatore Cardillo, que integra o repertório do tenor lírico José Carreras. A ária se inicia com um clamor, digno de um fervoroso amante abandonado: ?Catari, Catari, por que me dizes essas palavras amargas, por que me falas e o coração me atormentas, Catari??. Sem resposta, o deputado-tenor continuou: ?Não te esqueças que te dei o coração, Catari, não te esqueças!?. Enquanto solfejou do alto palco, como querendo resgatar a insensível amante - afinal estamos no Dia dos Namorados - o tenor não se alterou com a perspectiva de que o cenário esquentava e ameaçava jogar em pleno palco personagens até então restritos aos bastidores, como o ainda enigmático tesoureiro geral do PT Delúbio Soares. A canção continuou e se tornou mais angustiada: ?Catari, Catari, que vem dizer o teu falar que me provoca espasmos? Nunca pensas nessa minha dor, nunca pensas nela, tu não te importas!?. Não é surpreendente que Jefferson, hoje um dos homens mais execrados da Nação, tenha como hobby (ou como válvula de escape) o canto lírico. Al Capone, tinha a mania de executar friamente os seus inimigos, com requintes de barbaridade, preferencialmente aos sábados; em seguida ia à ópera, onde se emocionava e chorava candidamente, como se nada tivesse acontecido. O tesoureiro Delúbio (que as más e precipitadas línguas já podem estar elucubrando ser a insensível e ingrata Catari), veio a público, junto com a executiva do PT e se dispôs a dar todas as informações e a colaborar com a CPI, que apesar dos esforços do governo, se instala. Isto, junto com a agora propalada reforma política é o mínimo que se espera para o momento. As ?tenebrosas transações? com os recursos públicos, que tanto sangram o País, são o ato desconhecido da ópera. Não se sabe como termina uma CPI, mas se esta terminar com a conclusão de que é indispensável se reduzir os cargos comissionados e o tamanho do Estado, já promoverá um imenso serviço ao País. No final, a ária entoada por Jéferson arremata: ?Coração, coração ingrato roubou a minha vida, tudo passou e não pensas mais em mim!?. Será apenas um lamento apaixonado, ou uma ameaça? O tempo dirá. O que se sabe é que a distancia entre a paixão e o ódio é muito pequeno e neste caso a platéia vai torcer para que tenha existido apenas um flerte e não conjunção carnal, mas se esta existiu, não vai torcer pela reconciliação dos amantes. O final desta ópera bufa é imprevisível. (*) É médico.