Opinião
Sonhadores
GILBERTO DE MACEDO * Sonhadores são os que passam grande parte de suas vidas a criar imagens que correspondem aos seus desejos e ideais. Criam um mundo maravilhoso, de encanto e prazer. Sonho, define-se como uma série de imagens coerentes, que aparecem durante o sono, como símbolo de desejos inconscientes. Sua interpretação constitui a técnica fundamental da psicanálise criada por Freud. No sentido figurado, fala-se do sonho consciente que acontece em vigília, com a pessoa acordada. Na linguagem popular, comum, costuma-se dizer que, nesse caso, trata-se de pessoas que estão fora da realidade, que ?vivem no mundo da lua, aéreas?. Todavia, constata-se que sonhadores são aqueles que, em determinados momentos, guiados por um desejo, ou ideal, costumam, através de imagens lúcidas, criar um mundo agradável no qual acreditam, durante aqueles instantes. Pois, em verdade, trata-se aí de um mecanismo de defesa, para compensar as frustrações impostas pelas contingências de vida, o que revela que os sonhadores têm os pés no chão, diferente do que vulgarmente costuma-se falar. Sonhar acordado, para se realizar, exige fecunda imaginação, lúcida inteligência e profundos sentimentos; não é, então, dizer-se fora de realidade, o conceito dessa, aliás, não se restringe à materialidade. Como já dizia Pablo Picasso: ?Tudo que você imagina é real.? Dizer, então, que sonhar acordado é devaneio, não tem cabimento. Daí que esse sonhar acordado significa ampliar a realidade da vida, e um novo mundo, com nova maneira de viver aprazível, durante o sonho. Donde a oportunidade de Fernando Pessoa ter se expressado, dizendo: ?Sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo.? Assim, é realização e não fuga da realidade. Mas é criatividade que acontece no âmbito pessoal, levada pela imaginação, suscitando o filósofo Anatole France a dizer: ?Para alcançar grandes coisas, devemos tanto atuar, como sonhar.? Funciona, como estratégia mental para compensar desagradáveis experiências de vida. Cabe o ensejo para a explicação pessoal de James Salk: ?Tive sonhos e pesadelos, mas dominei os pesadelos, graças aos meus sonhos.? No mesmo sentido, têm se pronunciado, e certamente, farão, todos aqueles que se comovem com os dramas da vida. É da lição mesma de Freud, quando diz ?Sonhar... é como um ressuscitar da infância dos nossos impulsos.? Reviver, pois o que estava guardado no desejo, forma de sobreposição compensatória das desilusões existenciais de que nos fala Cervantes: ?O sonho é o alívio das misérias dos que as tem acordados.? (*) É médico.