Opinião
O outono e as viroses
JOSÉ MEDEIROS * Olha, doutor! Agora tudo que é doença respiratória já tem carimbo certo, é a virose; a pessoa está contaminada pela virose. Espirrou, tossiu, lacrimejou, a garganta ficou inflamada? Esse diagnóstico já está na ponta da língua de todo mundo. Mas, qual a diferença, afinal, entre resfriado, gripe e virose? O médico respirou fundo diante da avalanche de perguntas de dona Petronila, que lhe trouxera o filho com sintomas de febre, dor na cabeça, espirros, coriza, dores nos ossos e nos músculos. Explicou que os resfriados e gripes são provocados por vírus, embora eles não sejam do mesmo tipo. Apesar de atacarem com mais freqüência no outono, início de chuvas e baixa temperatura, os vírus estão presentes no ar durante o ano todo. São inimigos em potencial, aguardam somente a oportunidade de atacar. Era o último cliente do dia e o doutor pôde conversar, um pouco mais, enquanto examinava o menino. Estava preocupado não só com as viroses respiratórias, mas com o aparecimento de uma virose ainda não identificada, atípica, que ataca o estômago e o intestino, provocando vômitos, diarréia e dores abdominais. Estava aguardando o resultado dos exames de laboratório de alguns pacientes, mas sabia das dificuldades encontradas para esse diagnóstico, porque há centenas de vírus conhecidos e milhares de outros ainda inteiramente desconhecidos. Dona Petronila estava extasiada por receber tantas explicações. O médico insistiu numa tese: ?O hábito de fechar portas e janelas para proteger do frio pessoas com gripe pode agravar a situação dos doentes. É necessário promover a circulação e a troca do ar viciado, dando chance à entrada de ar puro. Em ambientes fechados, a concentração de vírus aumenta e contamina todos os que compartilham do ambiente?. O médico concluiu o exame e deu uma notícia pouco favorável: o garoto estava com pneumonia; foi solicitada uma radiografia apenas para comprovação. Dona Petronila saiu resmungando: a gente reclama do calor do verão e aí vem a mudança do tempo, facilitando a transmissão dessas ?viroses?. Acrescentou: ainda bem que eu tomei a vacina dos idosos. Uma dúvida lhe ocorreu. Por que não aplicam vacinas contra gripe para crianças? A vizinha respondeu ter ouvido na televisão que esta vacina é muito cara, importada, por isso não é distribuída para todos. Dona Petronila não se conformou: eu pago impostos, mereço que meus filhos sejam vacinados. Estudos e pesquisas sobre os vírus mostram que, sobre eles, ainda existem muitas dúvidas e incertezas. (*) É médico e ex-secretário de Saúde e de Educação.