Opinião
Sogra
Zaida Lins de Lima * Vulgarmente se comenta que a sogra é uma inimiga (ou quase isso) do genro ou da nora. Quem exprime tal conceito, generalizando, será, talvez, passível de um acompanhamento psiquiátrico. A sogra cria seus filhos ou filhas, de ordinário procurando lhes dar uma boa educação doméstica além da necessária orientação cultural. O que acontece, via de regra, é que um casal ao se apaixonar desconhece o desnivelamento entre famílias. Ignora-o. Depois sofre as conseqüências. Graves e quase sempre incontornáveis. A essa altura, ambos acordaram do sonho mirabolante e inatingível: o da felicidade eterna. Salienta-se aí, o sofrimento dos filhos nascidos da união. As crianças não entendem. Nem podem entender. Exemplificando: há muitos anos atrás, resolvi emburrar, após um bom arranca-rabo com o marido. Era jovem, ?dona da verdade? e me sentia injustiçada. Queria que tudo seguisse, conforme meu ponto de vista. Na época já dispunha de um filho pequeno. Minha sogra Luzita Lima, apesar da fama de autoritária, chamou-me para uma conversa de pé-de-orelha. Alertou-me para o fato de sermos, eu e meu marido, pessoas diferentes, apesar do mesmo nível cultural e educação semelhante. Pacientemente me explicou. Aquela igualdade somava pontos. Com uma lógica fora do comum sentenciou que o amor não se maltrata. Comparou-o a uma fogueira que tem de ser alimentada. Neste particular, pelo casal. Se extinguissem as labaredas, acabava-se o casamento. O lume havia de ser mantido. Pelos dois. Referia-se às atenções e cuidados, um com o outro, no zelo pelo amor próprio de cada um, respeitando até as manias do parceiro. Aquelas turras não deveriam ser acirradas, nem constantes. Concluiu: porque paciência tem limite. Até para cara feia. Nunca esqueci essa intervenção oportuna e gratuita. Essa e outras instruções recebi, acatando-as por entender e acreditar na experiência e boa fé da minha sogra. Sua influência longe de ser incômoda, foi benéfica. Além de todas as coisas boas que me transmitiu com sabedoria, ela nos estimulou a viajar, alargar horizontes e, sobretudo, a me vestir. Sim, porque eu me vestia como uma matutinha, sem graça. Apagada. Hoje sou uma mulher segura nessa arte que tem tudo a ver com feminilidade. Aprendi isto com ela. Quando ouço alguém falar mal de sogra, detecto uma falta de estrutura, cultural que denota, de plano, desleixo na educação. A sogra só deseja a felicidade dos filhos. Seja com quem for. Só não admite, e vira uma fera, ao ver seus filhos infelizes ou mal tratados. (*) É advogada e escritora.